A tímida confiança de Itaú e Bradesco no Brasil

A tímida confiança de Itaú e Bradesco no Brasil

Maior banco privado do País já está prevendo até um encolhimento na carteira de crédito esse ano

Fábio Alves

03 Fevereiro 2016 | 12h05

O presidente do Itaú, Roberto Setubal

O presidente do Itaú, Roberto Setubal

As projeções dos dois maiores bancos privados do País para o desempenho das suas carteiras de crédito mostram que, apesar das recentes medidas do governo para estimular a economia, com liberação de empréstimos por bancos públicos, é ainda muito baixa a confiança em relação à volta dos investimentos e do consumo em 2016.

Isso a despeito dos recentes indicadores de confiança para o mês de janeiro, os quais registraram alta e geraram uma expectativa de que o fundo do poço pode ter ficado para trás com o fechamento de 2015.

Na semana passada, os executivos do Bradesco informaram, durante a divulgação dos resultados financeiros, que a carteira de crédito expandida do banco, que inclui avais e fianças, deve crescer de 1% a 5% em 2016, abaixo do intervalo de crescimento de 5% a 9% divulgado para o ano passado, quando avançou apenas 4,2%.

Ontem, foi a vez do Itaú Unibanco traçar metas mais conservadoras para 2016. Levando-se em conta estimativas para o resultado consolidado, a carteira de crédito total do Itaú pode encolher 0,5% neste ano, segundo os executivos da instituição.

Essas perspectivas tão modestas contrastam com declarações mais otimistas, embora nem tanto, dos executivos desses bancos.

Durante a teleconferência com investidores na semana passada, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, afirmou que em 2016, “sentimos um retorno gradual da confiança com relação à economia brasileira. Também sentimos em Davos que o Brasil continua na rota dos investidores”.

Se o “guidance” (projeções) para a carteira de crédito está mais conservadora para 2016, como crer, ao menos na fotografia de hoje, que o fundo do poço ficou para trás?

É fato, porém, que os índices de confiança melhoraram em janeiro, embora sigam em patamares deprimidos.

Em janeiro, comparando com o mês de dezembro, a confiança do consumidor subiu 2,5 pontos, enquanto a do comércio avançou 6,4 pontos; a da indústria, 2,6 pontos; e a de serviços, 2,8 pontos, conforme os indicadores divulgados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Acontece que alguns desses índices atingiram o patamar mínimo histórico no mês de dezembro. Assim, não é surpreendente uma leve subida.

É, contudo, uma recuperação sustentável?

Não, enquanto houver fechamento de vagas de trabalho, com aumento da taxa de desemprego, além de inflação em alta, próxima de dois dígitos no acumulado em doze meses.

Também não dará sustentação a uma melhora na confiança, especialmente da indústria e de serviços, uma eventual retomada da turbulência do ambiente político, diminuindo a possibilidade de o governo conseguir aprovar medidas de seu interesse.

Apesar do esforço de Dilma Rousseff, que ontem foi pessoalmente ao Congresso na volta aos trabalhos legislativos, é baixa a expectativa em relação à aprovação da reforma da previdência e da CPMF, como a presidente pediu aos parlamentares em seu discurso.

Será suficiente o governo liberar R$ 83 bilhões em créditos via bancos públicos para a retomada da confiança?

Não seria mais efetivo, psicologicamente, se os bancos privados se engajassem nessa tarefa de estimular a economia via crédito?

Mas o diagnóstico dos bancos privados parece ser o de que não é falta de crédito que carece a economia brasileira, e sim simplesmente falta de confiança nos rumos macroeconômicos.

A desaceleração forte da atividade econômica conseguirá baixar a inflação, como espera o Banco Central?

Pode ser que sim, mas não para o patamar abaixo do teto da meta oficial de inflação, de 6,5%, como projetam hoje os analistas do mercado.

Sem o controle da inflação, que corrói a renda e a confiança, fica difícil esperar uma retomada do consumo e do investimento.

Nesse aspecto, a projeção dos bancos privados para a carteira de crédito, na fotografia atual de desarrumação da economia brasileira, parece até otimista.

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