A virada dos índices de confiança

A queda na confiança de empresários e consumidores teve uma contribuição importante para jogar a economia brasileira numa das suas piores recessões

Fábio Alves

27 de abril de 2016 | 10h30

Com as primeiras notícias sobre a formação do ministério de um eventual governo Temer, em particular a aposta crescente da nomeação de Henrique Meirelles no comando da Fazenda, os índices de confiança podem voltar a subir de forma consistente.

A queda na confiança de empresários e consumidores teve uma contribuição importante para jogar a economia brasileira numa das suas piores recessões, puxando ainda mais para baixo os investimentos, o consumo e, por tabela, a atividade econômica.

Os preços dos ativos já anteciparam o otimismo com uma eventual troca de governo, se o Senado aprovar o processo de admissibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff, levando a uma correção de rumos na condução da política macroeconômica.

A reação dos índices de confiança ainda é incipiente, na melhor das hipóteses.

O Índice de Confiança da Indústria (ICI) apurado na prévia da sondagem de abril subiu 2,7 pontos na comparação com o resultado final de março, para 77,8 pontos, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV). Trata-se do maior nível desde março de 2015 (79,5 pontos). A prévia de abril também mostra que o Índice de Expectativas (IE) avançou 3,5 pontos ante março, para 75,5 pontos, o maior nível desde dezembro passado.

Por outro lado, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) caiu 2,7 pontos em abril em comparação com março, fechando o mês em 64,4 pontos, menor nível da série histórica, iniciada em setembro de 2005.

Em conversa com esta coluna, o economista-chefe para Brasil de um banco estrangeiro acredita que provavelmente o índice de sentimento dos empresários vai reagir mais rapidamente que o dos consumidores, uma vez que esse último é influenciado pela taxa de desemprego, que deve demorar bastante tempo para se recuperar.

“Eu acho que vai haver uma certa antecipação, mas uma recuperação mais acentuada dos índices de confiança vai depender das medidas e do sucesso do novo governo”, explicou.

Para ele, uma melhora nos índices de confiança terá impacto nos preços de ativos, com queda adicional na percepção de risco-Brasil e seu impacto sobre o câmbio.

“Os preços de ativos é que reagem muito mais rapidamente e poderiam influenciar as expectativas”, observou o economista do banco estrangeiro. “A apreciação do câmbio, por exemplo, poderia ajudar a recuperação dos índices de confiança.”

Já um experiente economista paulista, em conversa com esta coluna, ressaltou que uma melhora dos índices de confiança é quase que garantida.

Para ele, essa melhora deve ocorrer em duas fases:

“Primeiro, na mera saída da presidente Dilma e, segundo, com a divulgação da equipe econômica e das primeiras medidas do novo governo”, explicou. “Obviamente, a segunda potencialmente pode ser muito maior que a primeira, desde que, naturalmente, seja uma boa equipe e o conjunto inicial de medidas seja vista como factível politicamente e adequado economicamente.”

Para esse economista paulista, a recuperação deverá ser melhor para os índices empresariais (indústria, construção e comércio, provavelmente nessa ordem) que para o do consumidor. O ambiente mais favorável aos negócios e os níveis mais deprimidos justificam essa visão, segundo ele.

“Para os consumidores, a retomada vai demorar um pouco mais, em especial diante da inércia do movimento de alta do desemprego, que ainda fará (muitas) novas vítimas por vários meses à frente”, disse ele.

Na opinião dele, esse quadro de melhora das expectativas será tanto mais importante quanto maior for o movimento de queda das taxas de juros de longo prazo, que por sua vez dependerá da nova equipe econômica e das medidas adotadas.

“Quanto melhor forem avaliados, maior o espaço de queda dos juros futuros de longo prazo, e, consequentemente, maior o espaço de retomada do crédito, seja para o investimento e, numa segunda fase, para o consumo”, afirmou.

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