Adeus à convergência à meta em 2017

A trapalhada na comunicação que antecedeu a decisão do Copom foi um divisor de águas

Fábio Alves

21 de janeiro de 2016 | 11h50

Eis o veredicto imediato da decisão do Copom de não subir a taxa básica de juros, que, embora possa ser defendida tecnicamente, gritava ingerência política da presidente Dilma Rousseff e do PT em cada palavra do comunicado que acompanhou o anúncio:

O dólar abriu os negócios desta quinta-feira a R$ 4,1524, com alta de 1,28% sobre o fechamento da véspera, e o contrato futuro de juros com vencimento em janeiro de 2021 saltou 20 pontos-base para quase 17%.

O sentimento na abertura dos negócios é: neste ano, a inflação deve superar em larga margem novamente o teto de 6,5% da meta oficial, como aconteceu em 2015.

E esqueça a convergência para o centro da meta, de 4,5%, tantas vezes prometida, em 2017.

Na mais recente pesquisa Focus, do Banco Central, a mediana das estimativas para o IPCA em 2016 foi revisada para cima pela terceira semana consecutiva para 7%. Já a estimativa de médio prazo do Top 5 (o grupo dos analistas que mais acertam a projeção para esse indicador) subiu para uma inflação de 7,54%.

Para 2017, a mediana das estimativas avançou para uma inflação de 5,40%.

Não será uma surpresa se houver, nas próximas semanas, uma deterioração mais significativa das expectativas inflacionárias.

Isso porque a confiança no trabalho do BC é parte importante das expectativas inflacionárias.

E nesse aspecto, esta gestão do BC perdeu a mão por completo.

Desde que a presidente Dilma assumiu o governo e nomeou Alexandre Tombini para comandar a autoridade monetária, o mercado já se frustrou com vários erros do BC ao longo do caminho.

Erros crassos de comunicação.

Todavia, era fácil Tombini e outros diretores do BC jogarem a culpa na política fiscal e na intervenção do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega pelo seu fracasso em controlar a inflação e as expectativas inflacionárias.

Simplesmente, agora não dá mais para jogar a culpa nos outros.

A trapalhada na comunicação que antecedeu a esta decisão do Copom foi um divisor de águas.

Em conversa com esta coluna, um economista carioca definiu bem o sentimento de vários participantes do mercado: “Como presidente do BC, ele (Tombini) é um ótimo militante petista”.

Aliás, a primeira parte do comunicado que acompanhou a decisão do Copom lembra muito as desculpas de Dilma Rousseff durante a eleição presidencial para justificar a recessão brasileira:

“Avaliando o cenário macroeconômico, as perspectivas para a inflação e o atual balanço de riscos, e considerando a elevação das incertezas domésticas e, principalmente, externas…”

Incertezas domésticas?

Quais seriam essas novas incertezas que o Copom não soubesse delas ao longo do último ciclo desde a reunião anterior? A ameaça do impeachment? A desaceleração mais forte da atividade econômica?

Incertezas externas?

O temor de desaceleração forte da economia chinesa piorou os ânimos no mercado no início deste ano, mas desde agosto de 2015 que a situação da China está no radar de investidores e analistas.

A queda no preço do petróleo, de fato, foi bem mais acentuada nas últimas semanas do que o esperado, mas há vários analistas que acreditam que o preço dessa commodity esteja mais perto do “bottom”, ou seja, fundo do poço.

Aliás, uma desaceleração mais forte da China terá um impacto mais forte sobre o câmbio, provocando uma pressão de alta do dólar sobre o real.

E essa incerteza é claramente mais inflacionária do que desinflacionária.

Desenha-se assim um cenário já alertado quando Joaquim Levy deixou o comando do Ministério da Fazenda, substituído por Nelson Barbosa:

Uma guinada heterodoxa da política econômica, com o retorno para os pilares da Nova Matriz Econômica.

E isso implica em alta no prêmio de risco dos ativos brasileiros, o que leva a mais inflação e, por tabela, queda nos juros reais se a taxa Selic fica parada.

Essa fatura já estamos pagando hoje: recessão e inflação alta. A ver qual será o preço da conta no futuro do que o BC decidiu fazer ontem.

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