Adeus aos falcões do Federal Reserve

Depois do discurso proferido pela presidente do Fed, os investidores finalmente se convenceram de que apenas ela está no comando desse ônibus

Fábio Alves

01 de abril de 2016 | 11h32

A despeito do sólido relatório do mercado de trabalho americano, investidores e analistas devem prestar menos atenção aos “hawks”, ou falcões no jargão em inglês para descrever aqueles mais inclinados ao aperto monetário, do Federal Reserve (Fed).

Quão relevantes serão os comentários daqui em diante de Loretta Mester (Fed de Cleveland), James Bullard (St. Louis) e Esther George (Kansas City), membros votantes do Fomc (sigla em inglês para Comitê Federal de Mercado Aberto)? Muito menos os de Dennis Lockhart (Atlanta), que não vota?

Quais os diretores do Fomc que ainda poderão mexer com os preços dos ativos nas suas declarações em eventos públicos?

Depois do discurso proferido nesta semana pela presidente do Fed, Janet Yellen, os investidores finalmente se convenceram que quem está no comando desse ônibus – nesse caso, os próximos passos de política monetária do BC americano – é apenas ela, Yellen.

Nas últimas semanas, até a presidente do Fed fazer seu discurso na terça-feira passada, em Nova York, a cotação do dólar e os juros futuros vinham reagindo às declarações dos falcões do Fomc, que vinham defendendo com estrondo uma alta dos juros nos EUA mais cedo do que tarde, argumentando que a recuperação da economia americana está nos trilhos.

Yellen foi tão incisiva ao dar seu recado “dovish” (menos inclinada ao aperto) que nada adiantará o tom mais animador do relatório para março do mercado de trabalho.

Além de o número de criação de vagas de emprego (“payroll”) em março ter vindo um pouco acima das estimativas (215 mil versus previsão de 213 mil), o resultado de fevereiro foi revisado de 242 mil postos de trabalho criados para 245 mil.

Mais ainda: o salário médio por hora trabalhada subiu 0,28%, enquanto que a expectativa era de alta de 0,3%. Na comparação anual, os ganhos dos trabalhadores subiram 2,3% no mês passado. E a taxa de desemprego ficou em 5% em março.

No seu discurso super “dovish”, Yellen praticamente descartou uma alta dos juros americanos na próxima reunião do Fomc, marcada para os dias 26 e 27 de abril. Ela enfatizou sua preocupação com os riscos ao crescimento da economia global, em particular com a China, e à inflação americana. Diante de um cenário menos favorável, Yellen disse que o Fed vai proceder com cautela.

Mesmo após a última reunião do Fomc, quando o Fed reduziu a projeção de quatro para apenas duas altas de juros neste ano, os falcões da instituição vinham injetando uma elevada dose de dúvida no mercado. No último dia 21, por exemplo, Lockhart (Fed de Atlanta) chegou a dizer que os indicadores mais firmes da atividade econômica poderiam justificar uma alta dos juros já em abril.

Olhando para o curto prazo, dá para dizer que, com os falcões declarados já um tanto neutralizados, o mercado prestará atenção nos diretores do Fomc que são considerados neutros ou no campo “dovish”.

Isso porque se algum desses fizer declarações menos “dovish” ou avaliações mais otimistas em relação à saúde da economia americana, os investidores poderão reagir, temendo um menor endosso a Yellen na sua postura extra cautelosa em relação ao aperto monetário.

Assim, os investidores vão monitorar de perto o que dirão os diretores Lael Brainard e William Dudley.

A primeira indicação do debate interno no Fed sobre a situação atual da economia americana e o balanço de riscos futuros será na divulgação da ata da última reunião do Fomc, que será publicada na semana que vem.

Nesse sentido, a ata poderá causar muito mais barulho nos preços dos ativos do que está sendo esperado agora, especialmente depois do discurso tão enfaticamente “dovish” de Janet Yellen.

Os falcões parecem desgarrados neste momento, mas ainda é cedo para descartá-los.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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