As eleições municipais e o PIB de 2016

As eleições municipais e o PIB de 2016

Se houver uma retomada da atividade no fim de 2016, a herança para 2017 pode ser positiva; eleições municipais também serão decisivas, pois uma derrota do PT poderia descomprimir o sentimento negativo no País

Fábio Alves

23 de outubro de 2015 | 12h40

PMDB tentará ganhar prefeituras nas eleições municipais de 2016. Foto: Clayton de Souza/Estadaõ

PMDB e o novo partido de Marina Silva, a Rede Sustentabilidade, tentarão ganhar prefeituras nas eleições municipais de 2016. Foto: Clayton de Souza/Estadão

Quão críveis são as projeções de vários indicadores macroeconômicos para 2016, em particular a do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), sem uma definição, por exemplo, da crise política?

Qual o empresário que investirá numa nova fábrica ou contratará mais trabalhadores sem ter a certeza absoluta, inclusive, de que a presidente Dilma Rousseff estará no cargo ao fim do ano que vem?

Na mais recente pesquisa Focus, do Banco Central, os analistas projetam uma contração de 1,22% do PIB em 2016, depois da estimada queda de 3% neste ano.

Uma coisa parece certa hoje: a recessão ao redor de 3% em 2015 já está praticamente garantida. E por uma questão até de carrego estatístico, um desempenho negativo da economia está virtualmente contratado para o primeiro trimestre de 2016.

A intuição de vários analistas ouvidos por esta coluna é que em 2016 o PIB sofrerá nova queda. A questão é: qual a magnitude da contração no ano que vem.

Será uma queda maior ou menor do que a estimativa de 1,22% contida na pesquisa Focus?

Mesmo que seja uma nova contração, é importante ver se a atividade econômica no Brasil acabará 2016 do mesmo jeito que se espera no primeiro trimestre, isto é, em contração.

Isso porque se o PIB de 2016 for negativo, mas se houver uma retomada da atividade no fim do ano que vem, então a herança para 2017 pode ser positiva, não comprometendo a esperança de um crescimento da economia após as esperadas quedas do PIB em 2015 e 2016.

Ou seja, 2016 pode até ser ruim, com um número negativo do PIB para o ano inteiro, mas, se terminar num vetor ascendente no último trimestre, então não condenará, ao menos, a economia em 2017.

Segundo interlocutores desta coluna, um evento poderá ser decisivo para a reversão das expectativas, injetando alguma dose de confiança dos agentes econômicos sobre o futuro: as eleições municipais de 2016.

Por essa tese, os investidores e empresários poderiam ficar animados se ocorrer uma derrota esmagadora dos candidatos do PT à Prefeitura das principais cidades brasileiras, como São Paulo, no ano que vem. Isso animaria o mercado, pois as eleições municipais tendem a antecipar o resultado das eleições presidenciais dois anos depois.

“Uma derrota fragorosa do PT nas eleições municipais do ano que vem deverá descomprimir o sentimento negativo em relação ao País diante da perspectiva de o partido ser um risco menor para o pleito presidencial de 2018”, disse a esta coluna um importante economista paulista. “Se acharem que o PT será carta fora do baralho, diante de um eventual resultado negativo nas eleições municipais, os agentes econômicos poderão começar a tomar decisões já pensando num futuro governo federal após 2018.”

Todavia, antes de chegar nesse cenário após eleições municipais, um outro catalisador político será crucial para o desempenho da economia em 2016: o risco de impeachment da presidente Dilma.

Num cenário em que Dilma consegue evitar o avanço de um processo de impeachment, via até a alegada negociação de bastidor com Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, muitos interlocutores desta coluna dizem que a perspectiva não será boa para a economia.

Isso porque a permanência de Dilma no cargo significará “mais do mesmo” na condução da economia, sem que um ajuste fiscal necessário consiga ser aprovado.

Nesse ambiente, muitos analistas acreditam que a queda do PIB será bem maior do que 1,22%, conforme projetado na recente pesquisa Focus. Não há quem descarte uma contração acima de 2%.

No entanto, há ainda um cenário mais pessimista do que Dilma ficar e seguir no “mais no mesmo” na economia: um processo de impeachment avançar na Câmara, mas ser contestado pela presidente no Judiciário, levando o País a observar uma batalha demorada e incerta entre a presidente e os que querem derrubá-la.

De qualquer forma, é possível dizer que fazer qualquer projeção para os indicadores econômicos ou traçar qualquer cenário de investimento para 2016 é um exercício inútil diante da turbulência política que envolve o Brasil.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast