Ata do Copom e o prêmio de risco

Fábio Alves

22 de janeiro de 2016 | 13h27

O quanto do recuo do dólar ante o real na manhã desta sexta-feira vem de um ambiente global de maior apetite a risco hoje, refletido na valorização de outras moedas emergentes, e o quanto pode ser uma intervenção chapa branca no câmbio, como desconfiam alguns participantes do mercado, para acalmar a tempestade após a decisão do Copom?

Ficou a impressão nas edições de jornais desta sexta-feira que o Banco Central foi a campo para vender, em comentários de bastidores, a sua decisão de não subir os juros básicos, tentando aplacar o furor e a frustração com o presidente da instituição, Alexandre Tombini.

Poderá a ata desta reunião do Copom, a ser publicada na quinta-feira da semana que vem, fazer passar a tempestade?

Uma dessas matérias de bastidores diz que a ata ainda deixará a porta aberta para a alta de juros “se necessário”.

Assim, o documento ficará um pouco “Frankenstein”, tentando apaziguar os ânimos de gregos e troianos ao mesclar recados “hawkish” (inclinado ao aperto) com mensagens “dovish” (menos inclinado ao aperto), uma vez que terá de explicar as incertezas domésticas e, principalmente, externas para justificar o cavalo de pau em manter a taxa Selic inalterada em 14,25% na quarta-feira passada.

Um diretor de uma administradora de recursos em São Paulo disse, em conversa com esta coluna, que não tomará a ata como parâmetro para basear suas posições diante do que aconteceu com a comunicação do BC na véspera da reunião do Copom.

Aliás, soubemos hoje, numa das matérias de bastidores, que Tombini mudou sua opinião sobre o curso da política monetária – após sinalizar a alta dos juros em discursos e instrumentos de comunicação, como a carta que escreveu para justificar o estouro da meta de inflação em 2015 – após voltar da reunião do BIS (Banco de Compensações Internacionais), que ocorreu nos dias 9 e 10 deste mês na Basileia, Suíça.

Ou seja, ele mudou de ideia – de um tema tão relevante como a alta de juros – e guardou para si: só não conseguiria então surpreender aqueles que têm o dom de psicografar o que passa na cabeça de um banqueiro central, já que comunicar o que pensa está entre suas atribuições.

Mas daí veio a “revelação” da situação crítica da economia brasileira pelo Fundo Monetário Internacional (FMI)…

Para interlocutores desta coluna, o prêmio de risco que agora se impõe ao Brasil, dada a guinada para a heterodoxia da política econômica, com a decisão do Copom como último exemplo, ainda não se vê hoje na cotação do dólar frente ao real.

E se esse bom comportamento tiver, eventualmente, um componente de ação chapa branca, então até quando esse movimento sub-reptício de intervenção cambial poderá represar um novo patamar para o dólar, diante da necessidade de se colocar um prêmio de risco adicional, uma vez que também cresceu a possibilidade de um desempenho fiscal ruim do Brasil em 2016?

Por volta das 11h50, o dólar estava cotado a R$ 4,1232, com queda de 1,13%.

Por enquanto, a mudança mais consistente e transparente de alteração de atitude do mercado é na inflação implícita: os títulos NTN-B com vencimento em 2018 fechou ontem com uma inflação de 10,19%.

Ou seja, o mercado está vendo um risco de uma inflação bem mais elevada em 2016 e em 2017 do que as projeções de analistas vêm apontando.

Na mais recente pesquisa Focus, a mediana das estimativas para o IPCA em 2016 foi revisada para cima pela terceira semana consecutiva para 7%. Já a estimativa de médio prazo do Top 5 (o grupo dos analistas que mais acertam a projeção para esse indicador) subiu para uma inflação de 7,54%.

Para 2017, a mediana das estimativas avançou para uma inflação de 5,40%.

Assim, se o impacto no câmbio hoje está mudo em relação ao ruído na política econômica, para onde vai ser canalizado o prêmio de risco? E quando não se puder mais represar isso, qual a magnitude de um movimento de “overshooting” do dólar?

O mercado ainda procura respostas para as questões acima.

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