Até onde vai a alta da taxa de juros

Até onde vai a alta da taxa de juros

Tudo indica elevação de 0,50 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic, nesta semana. Mas e depois?

Fábio Alves

27 Abril 2015 | 15h52

Sede do Banco Central (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)

Sede do Banco Central (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)

Na pesquisa Focus divulgada nesta segunda-feira, 27, pelo Banco Central, a mediana das apostas para a reunião do Copom marcada para esta quarta-feira é de uma elevação da taxa de juros em 0,50 ponto porcentual, para 13,25%, patamar no qual encerraria 2015.

Mas a aposta de médio prazo do chamado Top 5, ou o grupo de analistas que mais acerta a estimativa da taxa Selic na pesquisa Focus, considera que o ciclo de aperto não acabará com o juro básico em 13,25%. Para esses analistas, o BC elevará a Selic até 13,50%.

O que pesará mais na decisão do BC sobre até onde levar o ciclo de aperto monetário? Nível do dólar? Atividade econômica? Contribuição da política fiscal pós ajuste?

Para o economista-chefe de um banco estrangeiro, o mais provável é um aumento de 0,50 ponto porcentual, “que provavelmente será a última elevação devido à fraqueza da atividade econômica.”

O comunicado deve ser lacônico como o último, segundo esse economista. Por um lado, segundo ele, o câmbio está ajudando, mas pesará o comportamento da inflação.

“O último IPCA-15 foi muito ruim, mostrando ainda uma pressão muito forte sobre os serviços”, argumentou o economista do banco estrangeiro. “Se os números de núcleo da inflação continuarem ruins, então o BC provavelmente vai ter que continuar subindo os juros por mais algum tempo”, acrescentou.

Já um grande participante do mercado de juros e câmbio disse acreditar que é possível sim o BC encerrar o ciclo de aperto com uma elevação de 0,50 ponto na reunião do Copom desta quarta-feira, “mas pouco provável”. Para ele, o fator preponderante no tamanho final do aperto monetário resume-se às expectativas inflacionárias.

“Apesar de o BC ter sido enfático acerca de seu compromisso com a meta de 4,5% em dezembro de 2016, os analistas seguem céticos: nem a mediana da Focus nem o Top 5 acham que a inflação no ano que vem será inferior a 5,60%”, afirma o economista. “Já o mercado de NTN-B espera algo próximo a 6,15%.”

Na pesquisa Focus de hoje, a estimativa de médio prazo do Top 5 para o IPCA em 2016 manteve-se inalterada em 6,40%, bem acima da mediana das projeções, que é de uma inflação de 5,60%.

Ou seja, se o aperto monetário em curso acabar sem que essas projeções estejam mais próximas de 4,5%, será difícil manter a credibilidade do discurso de convergência que o BC vem fazendo já há algum tempo.

“Nesse momento, a estratégia do BC precisa ter sua credibilidade reforçada; esse deve ser o aspecto principal da decisão do Copom”, acrescentou.

Essa linha de raciocínio também é reforçada por um economista-chefe de uma importante instituição financeira paulista.

“A evolução das expectativas, neste momento, individualmente, me parece ser o principal fator por trás das decisões do BC”, disse a fonte acima.

Todavia, a corrente de analistas e investidores que acredita numa desaceleração do ritmo de aperto monetário no Copom desta semana não é desprezível.

“Apesar de reconhecer o tom mais duro da comunicação recente, acreditamos que desde a última reunião do comitê o balanço de riscos tornou-se mais favorável ao cenário de convergência da inflação ao centro da meta em 2016, justificando aumento de 25 bps (0,25 ponto porcentual) e o encerramento deste ciclo de aperto monetário”, afirmou o economista-chefe do banco Fibra, Cristiano Oliveira, em relatório enviado a clientes hoje. “Ademais, a taxa de juros real em torno de 7% a.a. está certamente acima do patamar neutro e, portanto, já é contracionista.”

Para Oliveira, os efeitos das ações de política monetária sobre a inflação são cumulativos e se manifestam com defasagens. “Julgamos que o aperto monetário, já implementado até aqui, somado à política fiscal contracionista do ministro Levy deve, nos próximos meses, levar a uma rodada de redução das expectativas para a inflação ao longo do horizonte relevante para a política monetária”, escreveu o economista.

No entanto, a curva de juros está precificando na manhã desta segunda-feira uma probabilidade majoritária de alta de 0,50 ponto na taxa Selic na reunião do Copom desta semana.

Se o Copom, de fato, confirmar as apostas majoritárias do mercado e elevar a taxa Selic em 0,50 ponto na reunião desta semana, o que esperar do comunicado?

Nesse caso, é bem provável que o comunicado sinalize, de alguma forma, uma desaceleração no ritmo de aperto monetário, de 0,50 ponto para 0,25 ponto.

Mas se o BC mantiver o texto do comunicado do Copom de abril inalterado em relação ao divulgado ao final do encontro de 4 de março, então a interpretação do mercado será a de que a autoridade monetária terá a intenção de elevar a taxa Selic em 0,50 ponto também na reunião de 2 e 3 de junho. Ou seja, o ciclo chegaria, no mínimo, a 13,75%.

De qualquer forma, a decisão do Copom desta semana e o comunicado que a acompanhará vão mostrar ao mercado qual o fator preponderante para o BC neste momento, se a atividade econômica fraca ou se as expectativas inflacionárias ainda desancoradas. A partir de então, o mercado poderá afinar suas apostas para o final do ciclo de aperto monetário.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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