Até qual patamar o BC deixará o dólar subir?

Num ambiente sem nenhum vetor de crescimento da economia, o câmbio é visto como a tábua de salvação

Fábio Alves

05 de agosto de 2015 | 14h19

Com a confiança de empresários e consumidores deprimida e investimentos em retração forte, restou o câmbio como a única fonte de impulso positivo para a economia brasileira neste ano.

É isso que já perceberam o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e, por tabela, o Banco Central, na interpretação de interlocutores desta coluna.

Com o dólar em alta, a indústria brasileira fica mais competitiva – afastando o produto importado -, a agricultura brasileira ganha mais um impulso e pode compensar a desaceleração em outros setores da economia, e a balança comercial melhora o desempenho de seus superávits.

Na última pesquisa Focus, a projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) foi revisada para uma contração de 1,8%. Mas espera-se que a estimativa do mercado para a recessão neste ano ultrapasse uma queda de 2%.

E num ambiente recessivo, deixar o dólar correr livre encontrará como pano de fundo um nível mais limitado de “pass-through” (repasse aos preços da desvalorização cambial).

Nos cálculos de vários economistas, um dólar a R$ 3,50 é onde estaria o câmbio hoje, em termos reais, comparado com o patamar de quando o real se estabiliza em 2000 após o governo de Fernando Henrique Cardoso deixar a moeda flutuar, promovendo uma forte desvalorização em 1999.

Mas em momentos de maior estresse de 1999 para cá, esse dólar, em termos reais, já esteve bem mais valorizado do que o nível de R$ 3,50.

Já faz dias que o mercado vem especulando quando o BC irá sinalizar que a moeda americana já subiu para um patamar que considera desconfortável.

Para muitos, o BC já deveria fazer isso ao, por exemplo, voltar a elevar a rolagem dos contratos de swaps cambiais.

Só para lembrar, o BC reduziu a rolagem em 60% para agosto e manteve esse mesmo porcentual do total a vencer para 1º de setembro. Quem esperava que o BC ajudasse a aliviar a pressão ao voltar a aumentar a rolagem para setembro se decepcionou, com o dólar ganhando mais fôlego nesta semana.

Para os que acreditam que o dólar já atingiu uma cotação indesejável, o argumento está nos efeitos colaterais da valorização da moeda americana, que atinge 32% neste ano: o impacto sobre a inflação.

Um importante gestor de um fundo de investimento, ouvido por esta coluna, foi além ao dizer que o BC não vai conseguir voltar a baixar a taxa Selic em 2016, como a curva de juros vem precificando. Isso justamente pelo repasse aos preços de uma forte desvalorização cambial.

Segundo ele, ao fazer uma compra líquida de dólares de US$ 4 bilhões, ao rolar menos os contratos de swaps, o BC está estimulando a demanda por hedge de vários agentes econômicos, em especial as empresas endividadas em dólares.

Quem não vai correr para comprar a moeda americana se o próprio BC está comprando dólares a um patamar acima de R$ 3,40?

Essa sinalização do BC, ao manter uma rolagem mais reduzida, acaba sendo um elemento de pressão adicional para a valorização do dólar.

Se não sinalizar que “enough is enough”, a moeda americana seguirá rápido em direção a R$ 4,00.

Mas, na visão de um diretor de uma administradora de recursos, com sede na Avenida Brigadeiro Faria Lima, ainda não chegamos a um patamar do dólar totalmente desconfortável ou prejudicial ao Brasil.

Segundo esse executivo, o peso colombiano desvalorizou-se 9% frente ao dólar em julho. Já o peso chileno, perdeu 5,5%. E nenhum desses dois países está ameaçado de perder o grau de investimento na sua classificação soberana de risco. Em julho, o real perdeu ao redor de 8,5% frente ao dólar.

Ou seja, desde o início do ano, a desvalorização do real frente à moeda americana tem sido uma das mais agudas, refletindo a deterioração dos fundamentos domésticos, mas essa perda tem também um componente global de fortalecimento do dólar frente às várias moedas internacionais.

Sem contar que a queda nos preços de commodities forçosamente leva a uma depreciação das moedas de países exportadores de matéria-prima, como o real.

Assim, essa mudança de patamar do dólar frente ao real já exigiria uma ação do BC?

“A pressão do hiato do produto é cada vez menor, diante da recessão mais profunda, ou seja, a ociosidade na produção é o melhor antídoto para o ‘pass-through’, o que é o melhor momento da economia lidar com uma desvalorização mais forte do câmbio”, ponderou a esta coluna o diretor da administradora de recursos ouvido acima. “Além disso, tendo em vista os riscos que a economia brasileira está enfrentando, o BC pode deixar o dólar subir um pouco mais.”

Para ele, enquanto o dólar não atingir R$ 4,00, o mercado ainda terá alguma dúvida se o real estaria, de fato, barato ou não. Nesse espaço, entre R$ 3,50 e R$ 4,00, muitos podem até achar que o real já ficou barato frente ao dólar, mas não de forma categórica para atrair fluxos e aliviar a pressão.

Mas dificilmente seria razoável pensar que o BC deixaria o dólar bater R$ 4,00, num momento de fragilidade política da presidente Dilma Rousseff e de impopularidade da equipe econômica com o ajuste fiscal.

Isso por conta do efeito psicológico sobre o brasileiro de uma cotação de R$ 4,00.

Nesse caso, o dólar não tem apenas efeitos nas variáveis macroeconômicas, mas também, neste momento, terá impacto político.

Por outro lado, a R$ 3,50 ou a R$ 3,60, talvez o dólar ainda não consiga mexer com a sensibilidade do ministro Levy e do presidente do BC, Alexandre Tombini, para levar o governo a intervir.

Num ambiente sem nenhum vetor de crescimento da economia, o câmbio é visto como a tábua de salvação.

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