Até quando Joaquim Levy aguenta firme

Até quando Joaquim Levy aguenta firme

Fábio Alves

25 Maio 2015 | 11h21

Foto: André Dusek/Estadão

Foto: André Dusek/Estadão

Ao dar uma desculpa gritante e, quiçá, intencionalmente esfarrapada para não comparecer ao evento mais aguardado das últimas semanas – o anúncio do contingenciamento do Orçamento -, Joaquim Levy não fez a escolha mais sábia para ventilar seu descontentamento, uma vez que a sua ausência calculada da entrevista coletiva a jornalistas pode colocá-lo contra a parede mais do que pressionar a presidente Dilma Rousseff, os parlamentares no Congresso ou mesmo os opositores no governo ao seu ajuste fiscal.

O tiro pode sair pela culatra.

O que acontecerá na próxima vez que Levy for derrotado em alguma medida importante que quiser adotar?

Já que Levy elevou o tom da sua insatisfação, ao fazer uma demonstração pública, com o desfecho no corte dos gastos previstos no Orçamento e na forma como eles foram descritos pelo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, o que restará ao ministro da Fazenda para protestar contra um próximo revés no Congresso ou no âmbito do governo?

Economistas e executivos financeiros que já trabalharam com Levy, no governo ou na iniciativa privada, fizeram a esta coluna idêntica análise quando ele aceitou o cargo de ministro da Fazenda:

Joaquim, como os seus íntimos o chamam, quer entrar para a história como uma espécie de salvador da pátria, como aquele que colocou ordem num País à beira de um precipício econômico, dados os desmandos feitos pelo seu antecessor, Guido Mantega, e pela presidente Dilma Rousseff, com uma participação para lá de importante do ex-secretário do Tesouro Nacional Arno Augustin.

Mesmo durante a sua passagem pelo Bradesco, Levy nunca se desfez da imagem de um servidor público por excelência. Para os seus amigos, ele realmente acredita na missão de melhorar o desempenho da máquina estatal. Durante sua passagem pelo Tesouro Nacional, ele não descansou enquanto não encaminhou o Brasil para o tão almejado grau de investimento da classificação soberana de risco.

Ou seja, sua missão no Ministério da Fazenda vai além de um prestigioso emprego: Levy quer deixar um legado. E quando isso assume tal proporção, as reações a derrotas ou a frustrações, se o andar da carruagem é lento demais para o seu agrado, correm o risco de descambar para o emocional.

Não teria sido melhor Levy ter usado a perspicácia das raposas velhas no mundo da política e ter revertido tal derrota nos bastidores?

Segundo o relato de interlocutores desta coluna, durante a negociação com o Congresso das medidas provisórias do ajuste fiscal, Levy não teria hesitado em pedir uma mãozinha de suas amigas na agência de rating Standard & Poor’s para fazerem declarações privadas ou públicas a fim de pressionar os parlamentares a não desfigurar muito o esforço fiscal contido nas MPs. Obviamente, tal relato não foi confirmado e ficou apenas como lenda, embora bem provável de ter acontecido.

Aliás, num episódio anterior de irritação do ministro, circularam rumores de que Levy teria ameaçado se demitir se o Congresso não aprovasse o seu pacote fiscal, conforme relatos de parlamentares publicados na imprensa.

Esse foi, inclusive, o primeiro sinal amarelo para quem temia uma eventual saída de Levy do Ministério da Fazenda, o que, para muitos, significaria o rebaixamento do rating soberano com a consequente perda do grau de investimento, sem falar numa debandada dos investidores estrangeiros.

Esta coluna criticou o episódio, se realmente o relato dos parlamentes fosse verdadeiro. Na ocasião, esta coluna disse que era muito cedo no jogo para Levy usar tal estratagema, pois poderia levá-lo a um ponto sem retorno na relação com o Congresso e com a presidente Dilma.

Agora, Levy sobe o tom, faz um gesto público de desagrado e manda um recado ameaçador à presidente e ao Congresso.

O problema é que se Dilma ou os parlamentares derem de ombro à sua ameaça velada na sexta-feira, Levy ficará desmoralizado numa próxima instância em que for derrotado.

Qual seria, então, a forma que ele demonstraria a sua contrariedade? Pegaria o chapéu e iria para casa?

O ministro não está nem há cinco meses completos oficialmente no cargo. Há muita estrada – e talvez decepções – pela frente. O segundo mandato da presidente Dilma está ainda na infância.

Assim, foi uma estratégia mal pensada e perigosa do ministro da Fazenda deixar como a principal imagem da entrevista a jornalistas sobre o anúncio do contingenciamento, estampada em foto nos jornais e nas matérias dos telejornais, sua cadeira vazia com a solitária placa ostentando o seu nome.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast