Banco Central já refém do juro real?

Banco Central já refém do juro real?

Fábio Alves

10 Dezembro 2015 | 13h57

Sede do Banco Central, em Brasília (Foto: Reuters/Ueslei Marcelino)

Sede do Banco Central, em Brasília (Foto: Reuters/Ueslei Marcelino)

A visibilidade quase zero do cenário político – com o rumo do processo de impeachment à mercê das decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e de revelações potencialmente explosivas da Lava Jato – e a baixíssima perspectiva de avanço de medidas fiscais necessárias podem forçar o Banco Central a elevar a taxa Selic não tanto para combater a inflação e as expectativas, mas para segurar o fluxo de capital para o País?

Apesar de já estratosférico em comparação com outros países, o juro real “ex-ante” no Brasil começa a ceder com o aumento das expectativas de inflação nos próximos doze meses.

Os juros elevados, auxiliados pela recente redução da volatilidade nas moedas emergentes frente ao dólar, atraíram um fluxo positivo para a renda fixa brasileira por parte de investidores estrangeiros, os quais, apesar da turbulência política, focaram na taxa de retorno.

E se a volatilidade no mercado de câmbio voltar com força assim que o Federal Reserve (Fed) começar a subir os juros americanos?

E se novas reviravoltas no processo de impeachment gerem uma nova onda de incertezas sobre o Brasil?

E se as agências de rating Moody’s e Fitch seguirem a Standard & Poor’s (S&P) e rebaixarem nas próximas semanas a nota de risco soberano do Brasil, retirando o grau de investimento?

Por enquanto, o Brasil está se beneficiando do “carry trade”, mas a volta da volatilidade das moedas pode retornar e erodir o fluxo de estrangeiros para títulos públicos brasileiros.

No meio da paralisia da atividade econômica e do caos político, estaria já o BC brasileiro refém de juros reais elevados para manter essa demanda de estrangeiros para os títulos públicos brasileiros?

Em conversa com esta coluna, a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, diz que o Brasil não está ainda refém do juro real, mas ressalta que se nada for feito para reverter a trajetória fiscal essa situação não estaria descartada.

“Corremos o risco de cair num quadro de dominância fiscal, ou antes disso, de uma desconfiança grande em relação à dinâmica da nossa dívida, e daí voltarmos ao passado, quando, na década de 80, uma inflação acelerava constantemente e o BC corria atrás subindo juros, para tentar manter o juro real estável”, comentou Zeina. “Se não tivermos um ajuste fiscal que tire do horizonte a preocupação com a dinâmica de dívida do Brasil, há o risco de termos uma espiral de câmbio, juros e inflação, num cenário em que perdemos a política monetária de vez e o BC fica passivamente subindo a Selic para manter juros reais.”

Zeina alerta que esse é um quadro mais extremo em que nada é feito em termos de ajuste fiscal e não somente de uma situação conjuntural deflagrada apenas, por exemplo, pelo aperto monetário iminente por parte do Fed.

Em conversa com esta coluna, o diretor-executivo de uma administradora de recursos com sede na Avenida Brigadeiro Faria Lima pondera que o juro real praticado no Brasil já é uma anomalia, se comparado com o resto do mundo. Mais ainda: como a expectativa de que a inflação acumulada em 12 meses, que bateu 10,48% em novembro, caia ao longo de 2016, o juro real “ex-post” deve se ampliar mesmo se a taxa Selic permanecer inalterada em 14,25%, embora o juro real “ex-ante” esteja em trajetória de queda, de um patamar atual ao redor de 8,60%.

O executivo acima, portanto, não crê que o BC deve seguir elevando a taxa Selic, especialmente porque a elevada inflação corrente e as expectativas em aceleração são apenas o sintoma e não a doença em si. “A inflação é o sintoma de um cenário político caótico, cuja doença é fiscal”, explicou a fonte. “Uma parte desse sintoma chamado inflação vem da correção dos erros passados, como represamento de preços administrados, e outra parte vem do câmbio.”

Para o executivo da administradora de recursos, o BC virou apenas passageiro da conjuntura atual, uma vez que a autoridade monetária entrou na crise política e econômica com baixíssima credibilidade e com a inflação elevada.

As condições monetárias estão, de fato, já bastante restritivas e, combinado com as incertezas políticas, não há nenhum risco de pressão inflacionária advinda da demanda, uma vez que vários analistas estão projetando taxa de desemprego acima de 10% e forte contração do PIB também em 2016.

Nesse contexto, se o BC seguir elevando os juros sem que a doença em si seja tratada poderá deflagrar uma percepção de insustentabilidade da situação econômica.

Uma nova rodada de aperto monetário, elevando os juros reais, poderá levar uma desaceleração mais forte da atividade, gastos do governo com juros mais elevados e trajetória fiscal ainda mais insustentável.

A questão é se o BC pode se dar ao luxo de simplesmente não fazer nada.

Mais conteúdo sobre:

Banco Central