Bancos estrangeiros temem impacto do vexame do Brasil

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Bancos estrangeiros temem impacto do vexame do Brasil

Desde o final da partida entre Brasil e Alemanha, que terminou com a histórica derrota por 7 a 1, analistas de grandes instituições financeiras passaram a estudar o que vai acontecer com as ações e outros ativos brasileiros

Fábio Alves

11 de julho de 2014 | 12h57

Liquidação da Copa 2014 na rua 25 de Março, em São Paulo (Foto: Felipe Rau/Estadão)

SÃO PAULO – O clima de festa desde o início da Copa do Mundo, quando passaram a qualificar o evento esportivo como um sucesso, deu lugar a análises pessimistas por parte de analistas de bancos estrangeiros após a acachapante derrota do Brasil para a Alemanha nas semifinais da Copa, na terça-feira passada.

E o que muitos haviam dito de que não haveria maiores implicações políticas do resultado dos jogos da Copa, agora também deu lugar a uma avaliação sobre os efeitos nos preços dos ativos brasileiros depois que a seleção brasileira foi goleada por 7 a 1.

O efeito psicológico de deixar a Copa de uma forma humilhante provavelmente será sentido nos preços das ações de empresas brasileiras, refletindo a perspectiva de eventual perda de apoio da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial de outubro.

É, em síntese, o sentimento de vários relatórios que passaram a ser enviados logo depois do jogo a clientes por analistas estrangeiros.

“A reação inicial a essa perda humilhante pode ser extrema e difícil de prever”, diz o
estrategista de ações para mercados emergentes do banco UBS, Geoff Dennis, em nota enviada a clientes.

“Mesmo que o resultado aumente a perspectiva de uma mudança de governo, deverá haver uma maior chance, nas próximas semanas, de comprar ações brasileiras a um preço mais baixo,
especialmente com um real menos valorizado do que o seu nível atual sobrevalorizado”.

Em razão do resultado da seleção brasileira na Copa, Dennis reiterou a sua recomendação “underweight” (abaixo da média) para a Bovespa na carteira recomendada para ações de mercados emergentes.

“A escala extraordinária da derrota de 7 a 1 do Brasil para a Alemanha levará a novas conversas sobre as implicações para o mercado acionário brasileiro e para as eleições de outubro (e muito mais além disso)”, argumenta o estrategista do UBS.Segundo ele, foi a primeira vez que ele escreveu sobre os efeitos de um resultado de uma competição esportiva sobre o mercado financeiro.

Dennis lembra que o cenário geral dos analistas era o de que se o Brasil ganhasse a Copa do Mundo, isso seria negativo para a Bovespa, pois aumentaria a probabilidade de Dilma ser reeleita, à medida que o “voto de protesto diminuísse”. Assim, a derrota da seleção brasileira pode ser vista como positiva para o mercado acionário, segundo Dennis, uma vez que aumentaria a insatisfação da população brasileira em relação à economia, aos serviços públicos ruins, ao custo em sediar o evento, etc.

“Nossos economistas acreditam que a derrota surpreendente (na Copa do Mundo) teria pouco impacto sobre um eventual resultado das eleições, a qual, ainda acreditamos, favorece, na margem, a vitória de Dilma (mais provavelmente no segundo turno)”, afirma Dennis. “Contudo, é difícil discutir que tal derrota não terá um efeito muito ruim sobre a psique do brasileiro.”

Também em nota a clientes, o estrategista para mercados emergentes do banco francês Société Générale em Nova York, Eamon Aghdasi, diz que, embora “gostemos de pensar que tais coisas triviais não importam para o mercado financeiro, esse caso (a derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo) pode provar uma rara exceção”.

Segundo Aghdasi, no curtíssimo prazo, o seu instinto diz que o impacto pode ser menor do que alguns anteciparam. “De fato, a atenção dos investidores vai mudar para a realidade, em particular a impressionante trindade de problemas econômicos do Brasil: crescimento fraco, inflação intensa e um quadro fiscal deprimente”, afirma o estrategista do banco francês.

“A boa notícia para os mercados brasileiros é que, apesar da relativa falta de importância do futebol no quadro mais amplo (‘big picture’), poderá haver mais burburinho em relação à vulnerabilidade política de Dilma e a possibilidade para um novo comando da economia a partir do próximo ano, à medida que os torcedores (isto é, eleitores) procurem respostas e responsabilidade pelos destroços da derrota.”

Já o diretor de pesquisas para a América Latina da Nomura Securities, Tony Volpon, afirma que para um País que define tanto o caráter nacional em torno do seu poderio no futebol, perder em casa terá maiores repercussões para além dos atos de violência observados até agora depois da “perda histórica” da seleção brasileira para a Alemanha.

Em nota intitulada “Brasil: Humilhação e Política”, Volpon lembra que o sólido desempenho até a semifinal do torneio e o bom sentimento geral acerca do evento esportivo – depois de muitos temores em relação à falta de infraestrutura e de possíveis protestos populares – deram um impulso ao governo nas últimas pesquisas de opinião. “Isso (esse impulso) provavelmente será revertido”, diz Volpon.

Antes do início da Copa do Mundo, Volpon havia atribuído uma probabilidade de 60% de vitória da oposição na eleição presidencial de outubro, baseado na contínua deterioração da situação econômica. A não ser pela ocorrência de protestos inesperados durante o evento, o estrategista da corretora Nomura não consideraria que os resultados dentro do campo tivessem um forte impacto no resultado das eleições.

“Contudo, esse tipo de derrota – tão inesperada e pesada na sua natureza – pode ter ultrapassado o limiar do que é normal e pode ter um impacto mais duradouro, assim como a derrota do Brasil para o Uruguai em 1950”, escreve Volpon.

“Mesmo assim, independentemente de como isso se desenrole, acreditamos que a nossa visão – de que a oposição deve provavelmente ganhar as eleições e as consequências disso para o mercado – foi reforçada pelo que legitimamente pode ser visto, do ponto de vista brasileiro, como uma derrota esportiva trágica.”

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