BC corta juros sob um falcão à la Bevilaqua?

Como ficará a política monetária uma vez que quase toda a diretoria do BC poderá mudar com eventual afastamento da presidente Dilma

Fábio Alves

25 de abril de 2016 | 11h53

A sinalização mais “dovish” (inclinada ao corte de juros) que se espera do Banco Central na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), cuja decisão será anunciada nesta quarta-feira, é um voto unânime pela manutenção da taxa Selic em 14,25%.

Isso implicaria na conversão de dois votos dissentes observado nas últimas três reuniões do Copom, os dos diretores Sidnei Corrêa Marques e Tony Volpon, que eram a favor de uma alta de 0,50 ponto porcentual dos juros básicos.

Em tempos normais, bastaria a mudança de opinião desses diretores, migrando para um voto unânime pela manutenção da Selic, para afetar a curva de juros no mercado.

Nesse caso, os investidores interpretariam que o início de um ciclo de afrouxamento monetário estaria mais perto do que longe ou até mesmo de que um primeiro corte da taxa de juros seria iminente.

Mas qual a validade desse recado – mudança no voto “hawkish” (inclinado ao aperto monetário) – se quase toda a diretoria do BC poderá mudar em breve com eventual afastamento da presidente Dilma Rousseff por 180 dias caso o Senado aceite a admissibilidade do processo de impeachment aprovada pela Câmara dos Deputados?

Num eventual governo Michel Temer, se o afastamento da presidente Dilma for aprovado pelo Senado, espera-se uma mudança de toda a equipe econômica, inclusive a troca do comando do BC, hoje a cargo de Alexandre Tombini.

Um novo presidente do BC poderá promover mudanças na composição do Copom e, assim, afetar a condução da política monetária.

Por enquanto, investidores e analistas esperam que o BC corte os juros até o fim deste ano, independentemente de quem esteja no seu comando.

Na pesquisa Focus, publicada hoje pelo BC, os analistas projetam uma taxa Selic encerrando 2016 a 13,25%, ou seja, um corte de 1 ponto porcentual. Há quem aposte numa redução maior: analistas do Bradesco e do Banco Itaú Unibanco, por exemplo, estimam juros básicos a 12,25% no fim de 2016.

O raciocínio por trás dessas estimativas é que um câmbio mais ancorado – abaixo de R$ 4,00 -, uma desaceleração da inflação corrente em razão da queda mais forte da atividade econômica e expectativas inflacionárias mais baixas abrirão espaço para corte de juros.

Analistas da corretora Brown Brothers Harriman consideram possível um primeiro corte de juros na reunião do Copom de junho, se até lá o Senado tiver aprovado o afastamento da presidente Dilma. Os economistas do banco JP Morgan também apostam num primeiro corte em junho.

Haverá então corte de juros tão cedo numa nova administração do BC?

Possível é, porém seria precipitado um novo presidente do BC, sem estabelecer qualquer histórico de sua gestão, cortar juros com menos de um mês no cargo.

Há espaço para redução na taxa Selic mais cedo do que tarde, mesmo que não aconteça em junho?

“Depende de quem vai ser o novo presidente do BC”, comentou a esta coluna um renomado economista de um grande fundo de investimento com sede no Rio de Janeiro.

Para esse economista, se o nome para suceder Tombini for alguém com o perfil de Afonso Bevilaqua – “muito próximo de Henrique Meirelles” (que está cotado para ser o ministro da Fazenda num eventual governo Temer) – é provável que a taxa Selic permaneça inalterada em 14,25% até o fim de 2016.

Mas, segundo a mesma fonte acima, se o escolhido para chefiar o BC for alguém como Ilan Goldfajn (ex-diretor do BC e atual economista-chefe do Banco Itaú), é provável que haja uma redução mais significativa dos juros.

Mas a curva de juros e as estimativas da Selic na pesquisa Focus não apontariam para a necessidade de redução da Selic ainda este ano?

“Quem está projetando uma inflação de 4,5%, que é o centro da meta?”, indaga o economista carioca. “Dentro da metodologia que o Tombini adotou nos últimos cinco anos, em que a inflação sempre ficou no topo da meta, então existe espaço para cortar juros. Mas num ambiente em que a meta de inflação é de 4,5% num horizonte relevante, não existe espaço.”

Todavia, o raciocínio do mercado, por enquanto, é que sair da recessão será o argumento preponderante para um novo comando do BC, mesmo que o seu presidente tenha um perfil mais “hawkish”.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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