Banco Central relaxa política monetária e a própria credibilidade

Banco Central relaxa política monetária e a própria credibilidade

Após garantir que não vai cortar juros para controlar a inflação, BC afrouxa depósito compulsório para estimular crédito e, por tabela, o consumo

Fábio Alves

25 de julho de 2014 | 13h28

Banco Central abre torneira e coloca mais dinheiro na economia

Ao relaxar as exigências de depósito compulsório para estimular os empréstimos bancários, o Banco Central surpreendeu novamente nesta sexta-feira, 25. E, ao contrário de ontem, com a publicação da ata do Copom, desta vez a surpresa foi negativa.

Depois de um passo adiante com uma mensagem atipicamente clara e direta na ata, esclarecendo que não pretende cortar a taxa Selic no curto prazo ao estar vigilante com a inflação e as expectativas inflacionárias, o BC deu um passo atrás em termos de sua credibilidade ao afrouxar as condições monetárias para impulsionar o crédito.

Afinal, o que quer o BC: manter inalterado o seu principal instrumento de política monetária para fazer convergir as expectativas de inflação ou estimular a economia com medidas do compulsório como as de hoje?

Em entrevista a jornalistas em Brasília, o chefe do Departamento de Normas do Banco Central, Sergio Odilon dos Anjos, explicou que os bancos terão até R$ 45 bilhões a mais de caixa disponível para novos empréstimos com as medidas divulgadas hoje.

As medidas relativas ao relaxamento dos depósitos compulsórios – num intuito de aquecer o mercado de crédito e, portanto, a demanda de consumidores – reforçaram a impressão de analistas de que a mensagem da ata do Copom ontem foi, na realidade, uma forma de o BC evitar acusações de ingerência do governo na política monetária às vésperas da eleição presidencial, quando a atividade econômica está se desacelerando num ritmo mais rápido do que se imaginava.

Então, valerá a pena a troca a que o BC está se propondo com as medidas de hoje, isto é, dar um passo atrás em termos de credibilidade da política monetária a favor de estimular a economia?

“As medidas anunciadas hoje podem ter um impacto um tanto limitado no crescimento do crédito, dado que a recente desaceleração dos empréstimos (por exemplo, o crédito livremente alocado a pessoa física retraiu-se 0,5% em termos reais em maio sobre igual mês de 2013) está sendo motivada principalmente pela elevada percepção de risco de crédito por parte dos bancos, em razão da visível desaceleração econômica e do crescente risco de desemprego”, afirmou em nota a clientes o economista-chefe para América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos.

Ramos vai além na sua avaliação: “Tentar estimular o crédito num ambiente de inflação ainda elevada poderá minar a eficiência da política monetária e da busca atual para desinflacionar a economia e realinhar a inflação para a esquiva meta de 4,5%”.

Também em nota a clientes, os economistas da consultoria Rosenberg Associados afirmam que as medidas podem, realmente, significar um pequeno alívio para o mercado de crédito, mas não alteram a percepção do cenário em termos de crescimento até o final do ano.

“Vale lembrar que o crédito deverá continuar seletivo e que o nível de endividamento das famílias continua elevado”, escreveram os economistas da consultoria. “Além do que, nos últimos meses, tivemos uma elevação da inadimplência, o que deve manter elevada a seletividade na concessão”. Para eles, o BC não deve mexer na taxa de juros tão cedo, porém está recorrendo às medidas macroprudenciais para prover algum alento ao mercado de crédito. “As medidas ocorrem em boa hora, mas, dada a conjuntura adversa para o consumo, deve ter impactos limitados”, acrescentaram os economistas.

Em relatório intitulado “Macro-(im)prudential measures” (ou numa tradução livre: “Medidas macro-(im)prudenciais”), os economistas Jankiel Santos e Flavio Serrano, do banco BESI Brasil, foram mais diretos: “O Banco Central tem mostrado uma capacidade impressionante de contradizer-se recentemente e as novas regras de depósitos compulsórios anunciadas hoje são mais um exemplo”.

Santos e Serrano ressaltam não ser contra melhoras nas regras de depósito compulsório – “o que parece ser o objetivo das mudanças anunciadas esta manhã” – mas argumentam que o atual momento está longe de ser o mais apropriado para tais alterações nas regras.

Um importante economista brasileiro fez a esta coluna um cálculo preliminar e “grosso modo” para mostrar o pequeno impacto em termos econômicos das medidas de hoje. Segundo ele, os bancos originam cerca de R$ 300 bilhões em empréstimos por mês e R$ 900 bilhões por trimestre. Assim, o relaxamento do depósito compulsório apenas representaria pouco mais de três dias de empréstimos dos bancos.

Se isso for verdade, valeu a pena o BC arranhar sua credibilidade por apenas alguns dias a mais de crédito?

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

Tudo o que sabemos sobre:

Banco Central

Tendências: