Brasil e África do Sul, os emergentes de castigo

Especificamente em relação ao Brasil, a maior preocupação neste momento é com a forte queda da atividade econômica

Fábio Alves

15 de janeiro de 2016 | 12h22

Com os mercados globais imersos num ambiente de aversão a risco neste início de 2016, em razão da China e da forte queda no preço do petróleo, dois países emergentes estão de castigo pelos investidores estrangeiros: Brasil e África do Sul.

Foi o que relatou a esta coluna gestores de dois grandes fundos de investimentos dedicados a mercados emergentes. Fatores domésticos no Brasil e na África do Sul acentuam um pano de fundo mais turbulento dos mercados globais no início deste ano e enquanto não houver uma melhora no noticiário econômico e político brasileiro e sul-africano, os preços dos ativos desses dois países dificilmente reagirão se houver um alívio do sentimento de aversão a risco nas próximas semanas e meses.

Especificamente em relação ao Brasil, a maior preocupação neste momento é com a forte queda da atividade econômica, o que torna ainda mais difícil gerar um necessário superávit fiscal e também estabilizar a relação dívida pública/PIB, conforme um resumo da situação feita pelos dois gestores de fundo a esta coluna.

Um desses gestores comentou que, desde a troca de comando no Ministério da Fazenda, com Nelson Barbosa substituindo Joaquim Levy, os investidores realçam o temor de o Brasil tentar “grow its way out of the crisis” (algo como sair da crise via estimulo ao crescimento) em detrimento de uma postura fiscal considerada mais adequada para a situação do País.

“O humor dos investidores em relação aos países emergentes é negativo em geral, com o noticiário econômico e político do Brasil podendo acentuar os movimentos do mercado”, explicou um gestor europeu de um dos maiores fundos de “real money” (aqueles que seguem um “benchmark” ou índice de referência de um ativo para alocar os recursos de sua carteira) dedicados a países emergentes.

Por outro lado, esses gestores admitem que as seguidas revisões de desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro para 2015 e 2016 geram um temor crescente sobre o tamanho do endividamento do País. Enquanto muitos analistas já estimam uma queda de quase 4% do PIB em 2015, a mediana das projeções da última pesquisa Focus aponta para uma retração adicional de 2,99% da economia em 2016.

Outro fator que segue como pano de fundo negativo para o Brasil, embora dormente neste momento devido ao recesso no Congresso Nacional, é a turbulência política.

“A visão é de que falta à presidente Dilma Rousseff a capacidade de avançar politicamente para conseguir a aprovação de medidas de seu interesse no Congresso”, disse o outro gestor de um fundo de investimento ouvido por esta coluna.

Por enquanto, a palavra de ordem dos investidores estrangeiros em relação ao Brasil é de cautela em termos de alocação de recursos.

Os fundos de investimentos mais focados em estratégias de curtíssimo prazo, ou o “fast money”, estão praticamente todos numa posição defensiva em relação aos ativos brasileiros, isto é, “underweight” (com alocação abaixo da média para países emergentes), enquanto as carteiras de “real money” têm uma posição “underweight” mais limitada, uma vez que é caro ficar com aplicações no Brasil muito abaixo do que o indicado pelo peso do País nos mercados emergentes.

Esses fundos de “real money”, por exemplo, optam por fazer uma aposta em juros futuros de longo prazo no Brasil esperando alta forte das taxas mais do que simplesmente ficar “underweight” nos títulos de dívida brasileiros. Isso em boa parte devido à atratividade das taxas de juros, o que favorece as operações de “carry trade”, enquanto a volatilidade do câmbio permitir.

Mas mesmo com a perspectiva de alta na taxa Selic, hoje em 14,25%, o humor generalizado dos investidores estrangeiros em relação ao Brasil é o de cautela, numa postura defensiva.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado

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