Cadê você, Ilan, numa hora dessas?

Falta aos analistas e investidores brasileiros uma sinalização sobre como a saída do Reino Unido da UE poderia afetar os próximos passos do Copom

Fábio Alves

24 Junho 2016 | 11h44

Mario Draghi, do Banco Central Europeu (BCE) já falou a respeito.

Janet Yellen, do Federal Reserve (Fed), também.

Falta aos analistas e investidores brasileiros uma sinalização sobre como a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) poderia afetar os próximos passos do Comitê de Política Monetária (Copom).

Já há dias os mercados financeiros globais vinham sacudidos pela possibilidade de o Reino Unido deixar a UE. Esse efeito não foi ignorado pelos principais bancos centrais do mundo. Yellen, por exemplo, vem alertado para os riscos do desfecho pela separação do Reino Unido da Europa.

O aperto monetário nos Estados Unidos muito provavelmente não mais contará com duas elevações dos juros americanos pelo Fed até o fim deste ano. E, dependendo dos estragos causados por um movimento de aversão a risco e do impacto na economia real, até uma única alta dos juros americanos corre o risco de não mais acontecer.

Enquanto isso, o novo presidente do Banco Central brasileiro, Ilan Goldfajn, mantém um silêncio incômodo num momento de incertezas e de extremo nervosismo.

Uma boa comunicação é também saber intervir verbalmente para acalmar e guiar os investidores, os quais estão no escuro em absolutamente tudo o que Goldfajn pretende fazer, com a intervenção cambial, com a meta de inflação, entre outros temas delicados.

Ele marcou sua primeira entrevista coletiva apenas para a próxima terça-feira, dia 28, após a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação (RTI).

Até lá, o estrago causado pelo evento de ontem poderá ter sido grande.

Em resultado divulgado na madrugada desta sexta-feira, os britânicos a favor do Brexit (saída da UE) somaram 51,9% do eleitorado ante 48,1% dos que apoiaram o Bremain (permanência).

Depois do “relief rally” (alta de alívio) observado ontem quando os investidores estavam esperançosos pela permanência dos britânicos, a onda de forte aversão a risco na esteira do desfecho chocante do Brexit está abalando os mercados mundiais.

A bolsa de Madri, por exemplo, estava despencando 12,47%, por volta das 9 horas da manhã desta sexta-feira, horário de Brasília. A de Milão caía 10,47% e a de Paris, 8,48%.

No mercado de câmbio, o euro perdia 3,26% frente ao dólar na cotação registrada à meia-noite, enquanto a moeda americana perdia quase 4% em relação ao iene. O “yield” (taxa de retorno) dos títulos do Tesouro americano de 2 anos era negociado a 0,597%, comparado a 0,777% registrado no fim da tarde de ontem, enquanto o “yield” de 10 anos estava a 1,519%, ante 1,742%.

No Brasil, o dólar à vista subia 2,79% frente ao real, as 9h10 desta manhã. Já os contratos DI vencendo em janeiro de 2018 abriram a 12,78% ante a taxa de 12,66% no ajuste de ontem. E o Ibovespa futuro despencava 5,52%, caindo para 50.000 pontos, após a abertura.

Sim, os mercados globais ainda estão refletindo o choque inicial da vitória do Brexit. Mais ainda: estão corrigindo o “relief rally” de ontem.

Além do impacto que o movimento de aversão a risco poderá causar – levando o dólar a um novo patamar de alta frente ao real -, há também que se considerar o efeito sobre a incipiente recuperação das economias da zona do euro e dos Estados Unidos.

Uma mudança de patamar do câmbio no Brasil, com o dólar voltando aos níveis de R$ 3,60 ou mais, poderá impedir um recuo maior da inflação corrente e das expectativas inflacionárias.

A primeira leitura seria que o BC não começaria a cortar a taxa Selic logo. Há algumas semanas, os investidores começaram a migrar as apostas para o início do ciclo de afrouxamento monetário para a reunião do Copom de agosto apenas.

Mas e agora? E se a aversão a risco for mais forte? E se as incertezas sobre o que poderá acontecer com vários outros países da União Europeia, levando a uma debandada em série? A Escócia já avisou que fará um novo plebiscito sobre a independência do Reino Unido.

Não é razoável Ilan Goldfajn fazer o mercado esperar por uma sinalização apenas na terça-feira – data que já pode ser considerada “longo prazo”. Até lá, poderemos estar todos mortos.

Em tempo: após a publicação desta coluna no Broadcast, serviço de notícias financeiras em tempo real do Grupo Estado, o Banco Central divulgou um comunicado informando que, caso necessário, adotará medidas adequadas para manter o funcionamento normal dos mercados financeiro e cambial. Em comunicado, a autoridade monetária afirmou que está monitorando continuamente os desenvolvimentos nos mercados global e doméstico.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast