Chegada a hora de o Fed sair de cima do muro

Chegada a hora de o Fed sair de cima do muro

Fábio Alves

19 de agosto de 2015 | 11h02

Kevin Lamarque/Reuters

Kevin Lamarque/Reuters

Com uma corrente significativa dos investidores apostando que a primeira alta de juros pelo Federal Reserve (Fed) acontecerá na reunião do Fomc (sigla em inglês para Comitê Federal de Mercado Aberto) de setembro, muitos acreditam que é chegada a hora de o BC americano utilizar a ata do seu último encontro de política monetária para sinalizar inequivocamente o “timing” do início do ciclo de aperto.

É preciso dizer que não é desprezível também o número dos que acreditam que a primeira alta de juros somente acontecerá na reunião do Fomc de dezembro.

Mas se a ação for, de fato, ocorrer em setembro, então a ata do Fomc referente ao encontro de julho precisa calibrar as expectativas com mais precisão. E aí está o espaço para volatilidade nos preços dos ativos nos mercados mundiais.

Obviamente, que até a próxima reunião do Fomc – marcada para 16 e 17 de setembro – haverá a divulgação de indicadores de atividade importantes, em particular o número de criação de vagas de trabalho, ou “payroll”.

Além disso, os diretores do Fed poderão também guiar o mercado conforme seu desejo à medida que a reunião se aproximar.

Mas a ata poderá ter um papel relevante em fazer pender as apostas mais decisivamente de um lado – setembro – ou de outro – dezembro – em termos da primeira alta de juros.

Mas há quem discorde da coluna. Kit Juckes, estrategista de mercados do banco francês Société Générale, não crê que a ata do Fomc irá “magicamente” limpar a névoa ao redor dos próximos passos do Fed.

Segundo ele, a maioria dos economistas, estrategistas e analistas responderam a pesquisas dizendo esperar uma alta dos juros em setembro ou, no máximo, mais tarde ainda em 2015. Já os operadores e investidores estão mais circunspectos depois de o Fed não subir os juros nos últimos anos.

“O mais provável é que a ata será vista como um suporte à visão do consenso entre analistas, mas fracassará em diminuir o temor de inação do Fed por parte de operadores e investidores”, afirmou Juckes. “E isso mais provavelmente deixará os mercados ainda imersos em incertezas.”

Já o estrategista-chefe de mercados para as Américas do Royal Bank of Scotland (RBS), John Briggs, ressalta que os analistas e investidores vão prestar especialmente atenção na descrição do cenário internacional na ata a ser divulgada logo mais.

“Uma vez que a reunião do Fomc de julho ocorreu depois dos eventos na Grécia e antes da desvalorização do câmbio na China, maiores preocupações nesse front na ata seriam uma sinalização importante – e uma sinalização ‘dovish’ (menos inclinada ao aperto)”, afirmou Briggs.

Uma postura mais “dovish” da ata seria não dar sinais demasiadamente claros de que a primeira alta dos juros aconteceria em setembro. Ou seja, quaisquer mensagens dúbias poderão diminuir o ímpeto das apostas do início do aperto no mês que vem. E aí é que reside a sinuca de bico do Fed: o tempo se esgotou para não ser claro.

Como a reunião do Fomc de setembro está em cima da hora, se a ata não enviar um sinal claro, os investidores vão reagir mais fortemente, migrando as apostas para dezembro, o que pode resultar num movimento forte nos preços dos ativos.

Se o Fed for mais transparente no desejo de começar o aperto em setembro – se esse for o caso -, então a movimentação de preços acontecerá na direção oposta.
Será um equilíbrio difícil de o Fed conseguir.

* Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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