Com ex-amante, FHC vive ‘momento Lurian’

Com ex-amante, FHC vive ‘momento Lurian’

Após as declarações da ex-amante de Fernando Henrique Cardoso ganharem destaque na imprensa, o que menos interessa são as implicações jurídicas do episódio e sim seu estrago político

Fábio Alves

19 Fevereiro 2016 | 11h18

Quase todo desvio de conduta, especialmente casos extraconjugais, era permitido aos aristocratas no século XIX, desde que tudo ficasse virtuosamente debaixo do tapete. Assim, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está vivendo seu “momento Lurian”.

Sorte dele que já não concorre mais a cargos eletivos. Mas azar do PSDB. O que menos interessa agora são as implicações jurídicas desse episódio e sim seu estrago político.

Isso porque as declarações da ex-amante de FHC estão ganhando destaque na imprensa – até o Jornal Nacional dedicou ontem preciosos minutos ao caso – e podem desviar do PT, de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff o indesejável holofote do escrutínio público, num momento claramente desfavorável à presidente, ao seu antecessor e ao seu partido, conforme se vê nas pesquisas de opinião.

Para quem não se lembra, as eleições presidenciais de 1989 foram palco de uma denúncia que mudou o desfecho daquele pleito: a exibição no programa de TV do então candidato Fernando Collor de Mello de um depoimento da enfermeira Miriam Cordeiro acusando o petista Lula de lhe pedir para fazer um aborto. Do relacionamento, nasceu Lurian, que na época já tinha 15 anos.

a jornalista Miriam Dutra, que teve um relacionamento com FHC em períodos dos anos 1980 e 1990, afirmou em entrevista à imprensa que o ex-presidente tucano usou uma empresa para lhe pagar US$ 3.000 mensais num contrato fictício de trabalho. Foto: Everson Oliveira/Estadão

A jornalista Miriam Dutra, que teve um relacionamento com FHC no passado, afirmou que o ex-presidente tucano usou uma empresa para lhe pagar US$ 3.000 mensais num contrato fictício de trabalho. Foto: Everson Oliveira/Estadão

Todavia, em época de Petrolão, Lava Jato e Zelotes, denunciar pedidos de aborto já não é o bastante para ganhar destaque na imprensa e se transformar de simples fofoca em escândalo político: a jornalista Miriam Dutra, que teve um relacionamento com FHC em períodos dos anos 1980 e 1990, afirmou em entrevista à imprensa que o ex-presidente tucano usou uma empresa para lhe pagar US$ 3.000 mensais num contrato fictício de trabalho.

Menos impactante foi a afirmação de que FHC já havia lhe pagado dois abortos. Da relação, nasceu Tomás, a quem o ex-presidente admitiu ter presenteado um apartamento de 200 mil euros em Barcelona, além de ter custeado os estudos numa prestigiosa universidade americana.

O estrago das declarações de Miriam Dutra vai muito além do que jornalistas e políticos sempre comentaram à boca miúda: da amante que teria sido despachada para a Europa.

“O debate hoje está muito polarizado e o governo Dilma está com uma agenda negativa bem mais forte do que a da oposição”, comentou a esta coluna o analista político da consultoria Tendências, Rafael Cortez.

Segundo ele, a oposição vive um bom momento, apesar das denúncias de propina envolvendo o PSDB paulista.

“Porém, com força insuficiente para atingir o debate nacional”, ressalta Cortez. “Eventualmente, se o episódio em torno da questão pessoal do ex-presidente FHC ganhar mais dimensão, isso poderá minimizar o desgaste do Palácio do Planalto.”

Para Cortez, não há ainda um risco muito significativo para a oposição, uma vez que essa discussão tende a ficar na esfera da polarização do caso FHC e Lula.

“Esse debate político pode roubar a atenção hoje focada no governo, mas tende ficar entre os personagens FHC e Lula”, diz o analista político.

O único senão é que, quando se começa a desatar os nós de um escândalo político, nunca se sabe onde vai parar ou quem sairá mais arranhado do episódio.

Ao se trazer elementos como contas no exterior e uso de empresas para pagamentos ainda não tão transparentes aos olhos públicos, até o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, alvo da investigação da Lava Jato, pode se sentir vingado.

Não à toa, os aristocratas não perdoavam seus pares que deixavam vir suas indiscrições à luz do dia.

 

Mais conteúdo sobre:

crise políticaFHCPSDB