Com inflação e desemprego em alta, até quando Dilma apoia o ajuste?

Com inflação e desemprego em alta, até quando Dilma apoia o ajuste?

Fábio Alves

19 de junho de 2015 | 12h39

Enfraquecida politicamente e com a popularidade em baixa, a presidente Dilma Rousseff vê em junho o agravamento dos indicadores de atividade e de inflação: enquanto a contração da economia está maior do que se esperava, os índices de preços ao consumidor sobem mais aceleradamente do que se previa.

O ingrediente final nessa delicada equação é o emprego. Não somente a taxa de desemprego está em alta, como também a geração de postos formais de trabalho passou a ser negativa, ou como os economistas chamam de “destruição líquida” de vagas.

Nesse ambiente, até quando a presidente Dilma “deixará rolar” o ajuste macroeconômico que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, estão implementando?

Dilma vê em junho o agravamento dos indicadores de atividade e de inflação/Estadão

Dilma vê em junho o agravamento dos indicadores de atividade e de inflação/Estadão

Esse ajuste não se restringe ao corte de gastos públicos, aumento de impostos, restrição a benefícios previdenciários e trabalhistas, ou mesmo elevação da taxa básica de juros. A liberação dos preços administrados, especialmente os de energia elétrica e combustíveis, reforça o fardo pago pelo consumidor brasileiro.

Os indicadores divulgados nesta sexta-feira apenas agravam a desconfiança de consumidores e investidores sobre a sustentação política do ajuste em curso.

O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) teve baixa de 0,84% em abril ante março, enquanto os analistas esperavam uma contração de 0,50%.

A inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) registrou alta de 0,99% em junho, bem acima da estimativa dos analistas, cujo consenso era de alta de 0,85%. O índice acumula alta de 8,80% em 12 meses.

Também hoje o ministério do Trabalho divulgou que o saldo líquido de geração de emprego formal em maio foi negativo em 115.599 vagas pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Foi o pior resultado para o mês de maio pelo menos desde 2003.

Assim, não é de se admirar se as próximas pesquisas de institutos de opinião mostrar uma queda na aprovação do governo Dilma. No mais recente levantamento do Datafolha, publicado no dia 11 de abril deste ano, a avaliação “ótimo” ou “bom” do governo seguiu em 13%. Já a última pesquisa CNI/Ibope, publicada no dia 1º de abril, a avaliação positiva do governo caiu para 12%.

Numa pesquisa interna do Palácio do Planalto, segundo relatos publicados pela imprensa, mas não confirmados pelo governo, a popularidade da presidente já teria caído para 8%.

Por enquanto, a atitude da presidente Dilma em relação ao ministro Joaquim Levy e ao ajuste macroeconômico tem sido de apoio. A presidente tem “deixado rolar”, segundo a avaliação de um executivo financeiro.

A dúvida, segundo ele, é até quando, especialmente no momento em que o desemprego subir para níveis desconfortáveis e a perda de renda do trabalhador se ampliar. Os dados mais recentes de consumo têm refletido essa combinação de inflação alta e temor do desemprego.

Analistas e investidores acreditam que o governo segue no rumo correto de apoiar o ajuste fiscal e monetário em curso.
A preocupação é de que a situação macroeconômica do Brasil tende a piorar bastante antes de melhorar.

Muitos economistas estão revisando para baixo a projeção do Produto Interno Bruto (PIB) para 2015 e 2016. Por enquanto, os analistas ouvidos pela pesquisa Focus, do BC, projetam uma queda de 1,35% do PIB para 2015 e um crescimento de 0,90% para 2016.

Mas a tendência é de que a estimativa de contração da economia brasileira em 2015 seja revisada para uma queda em torno de 2%.

Os números de inflação e de atividade econômica estão surpreendendo os técnicos do governo, que no início deste ano não imaginavam a magnitude da correção dos indicadores macroeconômicos do Brasil. Nem as agências internacionais de rating, as quais podem rebaixar em breve a classificação de risco soberano brasileira, o que só complicará a retomada da confiança de empresários, investidores e consumidores.

Nessa tempestade perfeita, até quando a presidente Dilma segura a onda?

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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