Com Lula ministro, Barbosa cai e Dilma sobrevive?

Na avaliação de investidores, a nomeação de Lula como um superministro poderá dar uma sobrevida ao governo Dilma

Fábio Alves

15 de março de 2016 | 11h44

O sentimento de que é iminente a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministro do governo Dilma Rousseff jogou um balde de água fria em quem apostou num processo mais acelerado de queda da presidente, com reflexos hoje na alta do dólar e na queda da Bovespa.

Na abertura da sessão de negócios desta terça-feira, o dólar subia 1,38% a R$ 3,6980. Já o índice Bovespa, abriu o dia em queda de 2,88%, a 47.461,19 pontos.

Na avaliação de investidores, a nomeação de Lula como um superministro poderá dar uma sobrevida ao governo Dilma.

O mercado não descarta a capacidade do ex-presidente de conseguir evitar uma debandada de partidos da base aliada, levando a reboque votos importantes num processo de impeachment na Câmara dos Deputados.

Todavia, com a imagem abalada pelas investigações da Lava Jato e do Ministério Público de São Paulo sobre se seria o verdadeiro dono de um tríplex no Guarujá e de um sítio em Atibaia, o poder de fogo de Lula já não é percebido pelo mercado como o mesmo de quando ainda comandava o País.

A capacidade de dar sobrevida ao governo Dilma não é a única dúvida que paira em torno de sua nomeação como ministro.

Para onde Lula deverá guiar a economia caso assuma uma posição de poder no governo Dilma?

Demitirá ele o atual ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, como quer o PT?

Tentará o ex-presidente reanimar a economia brasileira a qualquer preço, via estímulos ao consumo já utilizados no passado?

Nomeará ele para o lugar de Barbosa o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles?

Dará Lula carta branca para Meirelles fazer um ajuste na economia?

A resposta a essa última pergunta é não, para interlocutores desta coluna. Isso porque o PT e os movimentos sociais rejeitaram qualquer tentativa de ajuste por parte de Barbosa e, especialmente, pelo seu antecessor, Joaquim Levy.

Colocar Meirelles apenas como vitrine e não permitir a adoção de medidas para pôr em ordem as contas públicas não servirão para reconquistar a confiança de investidores, analistas e empresários na economia brasileira.

Assim, a cogitada nomeação de Lula como ministro está gerando mais dúvidas e incertezas nos investidores do que um alívio de que a casa poderia ser arrumada de uma vez por todas no segundo mandato de Dilma.

E num momento de baixa liquidez, incertezas levam os investidores a adotar uma postura defensiva.

Além das dúvidas sobre o que aconteceria com os rumos da economia e da coordenação política com o Congresso caso Lula se torne o rei, de fato, há a percepção de que a nomeação do ex-presidente para o Ministério de Dilma pode até lhe dar foro privilegiado, escapando do juiz Sergio Moro, mas não evitará novos abalos da sua imagem e da presidente se vazarem, no futuro, trechos de delações premiadas no âmbito da Lava Jato.

Na opinião de um executivo de uma administradora de recursos, uma nomeação de Lula como ministro de Dilma não reverte a expectativa do mercado de que a presidente não conseguirá terminar o seu mandato em 2018, mas tornará o caminho mais difícil e incerto até a eventual queda deste governo.

“A ida dele (Lula) para um ministério reduz a euforia inicial vista no mercado financeiro sobre o timing que se esperava para o fim do governo, pois indica que o meio do caminho será muito mais complicado do que se imaginava”, disse o executivo em conversa com esta coluna.

De qualquer forma, a nomeação de Lula para um cargo de ministro abrirá uma nova fase de incertezas sobre o Brasil e, por tabela, de muita volatilidade nos preços dos ativos.

Fica apenas a convicção por parte de vários interlocutores desta coluna de que essa jogada – Lula superministro – deve ser a última cartada de Dilma no cargo, sua derradeira mexida ministerial.