Como a surpresa da Moody’s afeta Nelson Barbosa

Como a surpresa da Moody’s afeta Nelson Barbosa

Ao fazer um rebaixamento duplo com perspectiva negativa, a agência de rating está mandando a mensagem de que a situação da economia brasileira está se deteriorando muito rapidamente

Fábio Alves

24 Fevereiro 2016 | 10h35

Voto de confiança da Moody's no Brasil permaneceu até na troca do comando da Fazenda de Joaquim Levy por Nelson Barbosa. Foto: José Patrício/Estadão

Voto de confiança da Moody’s no Brasil permaneceu até na troca do comando da Fazenda de Joaquim Levy por Nelson Barbosa. Foto: José Patrício/Estadão

A reação inicial do mercado ao anúncio da Moody’s foi reflexo da grave avaliação qualitativa da surpreendente decisão da agência de rating de fazer um atípico rebaixamento duplo da classificação soberana brasileira. Não só isso: é mais atípico ainda um rebaixamento duplo com a manutenção de um “outlook” (perspectiva) negativo da nota de classificação de risco, o que implica em potencial novo corte do rating.

A Moody’s foi a terceira agência de rating internacional a rebaixar a classificação de risco soberano do Brasil. No início dos negócios desta quarta-feira, a Moody’s cortou a nota brasileira de Baa3 para Ba2, atribuindo um “outlook” negativo.

Pior ainda: o “timing” do anúncio desse rebaixamento – logo após o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, ter divulgado o que pretende fazer na economia e na área fiscal, na última sexta-feira – deu margem à interpretação no mercado de que Mauro Leos, o principal analista para Brasil da Moody’s, jogou a toalha depois de ter ficado sozinho a dar o benefício da dúvida a Barbosa e seu plano para a economia brasileira.

De imediato, o dólar disparou 1,02%, ultrapassando os R$ 4,00. Sim, o mercado está mais vulnerável hoje por ser, no ambiente internacional, um dia de “risk off”, ou seja, de aversão a risco, mas a decisão da Moody’s surpreendeu pela magnitude do recado que enviou ao governo Dilma Rousseff.

Só para lembrar, a Moody’s estava bastante atrasada em relação às outras agências de rating na avaliação da nota soberana brasileira, em particular a da Standard & Poor’s (S&P), que foi a primeira a retirar o selo de bom pagador do Brasil – o grau de investimento – em setembro do ano passado.

Então, a primeira grande mensagem que o investidor interpretou da decisão anunciada hoje foi que o movimento da Moody’s equalizou a sua avaliação com a nota mais negativa sobre o Brasil, que é da S&P.

Quando a S&P começou a se mexer, a Moody’s adotou a seguinte postura percebida pelo mercado: a de que o Brasil ainda tinha uma grande resiliência no setor externo. Isso era o mais importante para a agência manter por mais algum tempo o grau de investimento.

Esse voto de confiança permaneceu até na troca do comando da Fazenda de Joaquim Levy por Nelson Barbosa.

Só que agora ao fazer um rebaixamento duplo e com um “outlook” negativo logo após Barbosa ter anunciado os cortes no orçamento e também seu plano fiscal, a Moody’s quis dizer o seguinte, na visão de um renomado economista brasileiro:

“Os argumentos de quem estava querendo dar o benefício da dúvida ou de quem via a força do setor externo como muito mais importante do que estava acontecendo domesticamente se enfraqueceram a tal ponto que a Moody’s desistiu desses argumentos”, explicou o economista acima.

Essa medida qualitativa está por trás da reação inicial do mercado. “Quem apostou que poderia haver uma chance de virada na economia brasileira e que o País está mais sólido, está desistindo agora”, disse o renomado economista. “Mauro Leos era o último esteio de credibilidade do governo Dilma nas agências de rating e com a decisão de hoje ele praticamente disse: é verdade, a S&P tinha razão.”

Assim, a Moody’s retirou o seu benefício da dúvida a Nelson Barbosa. E ao fazer um rebaixamento duplo com o “outlook” negativo, a agência de rating está mandando a mensagem de que a situação da economia brasileira está se deteriorando muito rapidamente.

Esse é o outro significado do anúncio de hoje que preocupa os investidores.

De qualquer forma, a percepção de risco Brasil medida pelo mercado, via contratos de 5 anos de Credit Default Swaps (CDS), que são uma espécie de seguro contra eventual calote de um emissor, já negocia o País como se o seu rating estivesse ainda dois graus abaixo do que está hoje após o rebaixamento da Moody’s.

Mas esse nível é o que o rating soberano brasileiro sempre esteve entre o Plano Real e 2006, antes de a nota do País começar a ser elevada pelas agências internacionais. Ou seja, o pior, em termos do rating brasileiro, talvez ainda não tenha ficado para trás.