Como o Brasil vai reagir à desvalorização do yuan?

Como o Brasil vai reagir à desvalorização do yuan?

Com a decisão de desvalorizar o yuan ante o dólar em 1,9%, o governo chinês coloca uma dúvida no mercado: até qual patamar vai o desejo em depreciar sua moeda e em que velocidade

Fábio Alves

11 de agosto de 2015 | 14h23

A grande pergunta sobre a decisão do Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês) de desvalorizar o yuan em 1,9% é até qual patamar vai o desejo do governo chinês em depreciar sua moeda e em que velocidade.

Dessa resposta, ainda uma incógnita, vai depender da reação das autoridades monetárias mundiais, inclusive o Banco Central brasileiro.

Qual será a pressão sobre os próximos passos da política monetária no Brasil da decisão do governo chinês?

Reagirá o governo brasileiro com outras políticas para compensar eventuais efeitos colaterais à balança comercial do País ou à indústria nacional?

Antes de endereçar essas questões, vale a pena destacar algumas reações de analistas internacionais.

Kit Juckes, estrategista de câmbio do banco francês Société Générale, disse o seguinte:

“Se ou não o PBoC pretende ser esse o início de uma série de movimentos em direção a uma moeda mais competitiva, vai ser difícil parar o efeito dominó de preços mais fracos de commodities e de moedas mais desvalorizadas nos mercados emergentes e nos exportadores de matérias-primas”, escreveu Juckes em nota a clientes.

China realizou a maior desvalorização da história do yuan ante o dólar em um só dia, de 1,9%/Reuters

China realizou a maior desvalorização da história do yuan ante o dólar em um só dia, de 1,9%/Reuters

Já o estrategista-chefe para mercados emergentes do Commerzbank, Simon Quijano-Evans, ponderou que a reação mais enfática das moedas da América Latina à decisão do PBoC deve-se à grande exposição de muitos países à China, que é “a maior destinação individual das exportações brasileiras”.

Segundo Quijano-Evans, o movimento do PBoC “reforçou sua posição de cautela em relação ao Brasil”, ao qual o Commerzbank atribui uma recomendação “underweight” (abaixo da média da carteira de emergentes) para os títulos da dívida local e em moeda estrangeira.

Os estrategistas especializados em Yuan do Commerzbank esperam uma desvalorização gradual contínua da moeda chinesa, de, no mínimo, mais 1% até o fim deste ano.

E qual o impacto para o Brasil?

Em conversa com esta coluna, o economista-chefe de um banco europeu disse que a desvalorização do yuan é ruim para os ativos brasileiros.

“A medida pode reduzir a demanda da China por commodities, deprimindo o preço dos principais produtos de exportação brasileiros, prejudicando assim o real”, afirmou esse economista. “A medida também reflete a preocupação do governo chinês com o enfraquecimento do crescimento econômico, outra má notícia para os países que exportam para a China, como o Brasil.”

Além disso, segundo o economista acima, essa decisão de depreciar 1,9% pode ter sido apenas o primeiro passo, e desvalorizações adicionais poderiam causar uma “currency war”, com outros países desvalorizando suas moedas também – outro fator negativo para o real.

“Embora a depreciação do real seja compensada em boa parte pela queda dos preços de commodities no mercado internacional, ainda assim ela não ajuda o BC a controlar as expectativas de inflação, o que pode vir a demandar juros mais elevados, ou então retardar um corte de juros”, argumentou o economista do banco europeu.

Na opinião de um experiente economista paulista, a depender do movimento do yuan nos próximos dias, o impacto pode ser grande e abrangente para o Brasil.

Para ele, a despeito da sinalização de que tal movimento é “one-off” (extraordinário), há dúvidas se, de fato, será assim – entre outras razões, porque como muitas outras moedas diretamente ligadas à China – real, dólar australiano, etc. – também estão desvalorizando em magnitude semelhante ao movimento do yuan, o ganho relativo da moeda chinesa desaparece ou se reduz muito em relação a elas.

“Se, de fato, mesmo que em magnitude inferior, o yuan continuar depreciando, aí então a coisa pode ficar mais séria”, disse o economista paulista em conversa com esta coluna.

De um lado, afirmou ele, haveria uma retomada do processo de exportação da desinflação chinesa para o resto do mundo. “Isso obviamente tiraria uma fonte de pressão sobre o FOMC (Comitê Federal de Mercado Aberto, do Federal Reserve) para subir os juros, ao menos no curto prazo – setembro e quem sabe até mesmo dezembro”, observou.

Outro impacto sobre os juros americanos , segundo a fonte acima, poderia se dar pela maior acumulação de reservas internacionais pela China, potencialmente aumentando a demanda pelos títulos do Tesouro americano e jogando seus juros para baixo.

“Se, de um lado, isso incentivaria a busca por ativos de risco (com o adiamento do início do ciclo de alta dos juros pelo FOMC e a pressão baixista sobre os juros de longo prazo), por outro lado forçaria diversos países que têm na China um importante parceiro comercial a desvalorizar suas respectivas moedas, inclusive o Brasil”, argumentou a fonte. “Na parte de commodities, o impacto deveria ser menor, mas do ponto de bens manufaturados, uma China mais competitiva faria um belo estrago.”

Em resumo: mais desvalorização do real é potencialmente mais inflação – mesmo com baixo “pass-through” (repasse aos preços). E mais inflação é mais pressão sobre o Banco Central.

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