Controles de capital na China e a ameaça ao real

Controles de capital na China e a ameaça ao real

O que está por trás das especulações sobre a adoção de controles de capitais é a sensação de que o governo chinês não terá condições estimular a economia

Fábio Alves

02 Fevereiro 2016 | 14h06

Cenário base de várias instituições financeiras é de uma desvalorização gradual e controlada da moeda chinesa

Cenário base de várias instituições financeiras é de uma desvalorização gradual e controlada da moeda chinesa

É crescente a especulação de investidores quanto à adoção em breve pela China de medidas mais drásticas de controle de capital, não somente para estancar as saídas de recursos registradas ao longo do último ano, como também para permitir desvalorização de maior magnitude do yuan.

Ao longo dos últimos meses, as autoridades chinesas vêm adotando medidas mais suaves de controle de capitais. Nada que ainda tenha gerado maior pânico no mercado, mas é crescente o temor de que uma guinada abrupta venha a ser adotada em breve.

Na sessão de negócios desta terça-feira em Xangai, o dólar fechou a 6,5797 yuans, ante 6,5792 na véspera.

Por enquanto, o cenário base de várias instituições financeiras é de uma desvalorização gradual e controlada da moeda chinesa. O canadense Scotiabank estima um dólar a 6,70 yuans ao fim deste ano. O inglês Barclays Bank prevê cotação de 6,90 yuans ao fim de 2016. A corretora japonesa Nomura Securities também estima uma cotação de 6,90.

E o francês Société Générale tem uma projeção de 6,80 yuans, mas já atribui um risco de 35% de a desvalorização da moeda chinesa ser de uma magnitude bem maior, com o dólar batendo 7,50 yuans ao fim de 2016.

O fato é que as declarações de autoridades chinesas, como a do primeiro-ministro Li Keqiang, negando a intenção de promover uma desvalorização mais forte do yuan, assim como a de adoção de controle de capitais, não convenceram investidores ao redor do globo.

Uma coisa parece certa para analistas e estrategistas cambiais: antes de permitir uma depreciação mais forte do yuan, o governo chinês adotará controle de capitais para evitar uma fuga mais significativa de recursos, pondo em risco suas reservas internacionais, sua capacidade de administrar a trajetória do câmbio e amenizar potenciais efeitos de uma eventual crise no balanço de pagamentos.

O Société Générale, por exemplo, estima que, do segundo trimestre de 2014 até janeiro deste ano, as reservas internacionais da China registraram queda de US$ 663 bilhões.

O que está por trás das especulações sobre a adoção de controles de capitais é a sensação de que o governo chinês não terá condições de conciliar três necessidades prementes neste momento: estimular a economia (via corte de juros, por exemplo, pelo BC chinês), desvalorizar o câmbio e impedir a fuga de capitais por residentes e estrangeiros.

Diante da desaceleração forte da economia chinesa – muitos analistas projetam crescimento de “apenas” 6,5% do PIB neste ano – e da postura de afrouxamento monetário por parte de vários bancos centrais de países desenvolvidos, as autoridades chinesas provavelmente vão mirar um yuan mais depreciado frente ao dólar.

Só para recapitular: em agosto do ano passado, a China anunciou uma desvalorização de quase 2% do yuan ante o dólar, movimento esse que gerou forte turbulência nos mercados globais.

“Num cenário mais negativo e adverso, poderemos até ver um retorno aos controles de capitais adotados em 1998, durante a crise da Ásia, quando as autoridades chinesas impuseram um período de 12 meses para permitir a retirada de recursos do país em caso de vendas de ativos”, comentou a esta coluna o estrategista-chefe de câmbio do banco ING, Chris Turner. “Todavia, há questões de reputação: os chineses não vão querer ser comparados com a Ucrânia e a Islândia, que adotaram medidas drásticas de controles de capitais.”

Mas se a China decidir por esses controles, quais seriam as repercussões para as moedas emergentes, como o real do Brasil?

“Num cenário de imposição de controles de capitais mais duros pela segunda maior economia mundial, algo que meus clientes em Pequim e Xangai agora esperam, eu favoreceria as moedas de economias com grandes superávits de conta corrente em detrimento dos países que dependam do capital estrangeiro”, escreveu hoje o estrategista de câmbio do Société Générale, Kit Juckes, em nota a clientes.

Para ele, com o preço do petróleo nos níveis atuais, a moeda mais barata com superávit de conta corrente é o rublo da Rússia. “Ficar comprado em rublo/real é uma das maneiras de se posicionar para esse risco, pois o déficit de conta corrente do Brasil permanece bem acima de 3% do PIB”, explicou Juckes.

Assim, a China segue como um risco significativo para desestabilizar os preços dos ativos mundiais, numa ameaça maior para os países emergentes, especialmente se a adoção de controles de capitais for seguida de uma desvalorização mais abrupta do yuan.

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