Copom contra a parede em janeiro

Copom contra a parede em janeiro

BC está num beco sem saída na próxima reunião do Copom: se não elevar o juto, ficará a desconfiança de que teve o dedo do novo ministro da Fazenda

Fábio Alves

21 de dezembro de 2015 | 12h18

bancoCentral539O Banco Central está num beco sem saída: se não elevar a taxa Selic na próxima reunião do Copom, marcada para o dia 20, ficará a desconfiança de que teve o dedo do novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa.

E não porque a autoridade monetária, depois de analisar os indicadores de atividade e as projeções de inflação do mercado, terá chegado a conclusão de que ainda é cedo para retomar o ciclo de aperto monetário.

No fim da sexta-feira, quando foi confirmado o nome de Barbosa para substituir Joaquim Levy, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, garantiu que essa troca de ministros não terá qualquer mudança para a política monetária do BC em curso.

Até a divulgação dessa declaração pública de Tombini, a curva de juros estava num movimento para ficar mais “flat” (isto é, a ponta curta ensaiou cair e a ponta longa, subir, com os investidores retirando apostas de alta da Selic no curto prazo) devido a uma confusão no mercado desde o café da manhã do presidente do BC com jornalistas na quinta-feira passada.

Nesse evento, uma agência estrangeira de notícias divulgou erradamente que o BC iria “tentar” entregar a inflação em 2016 dentro do limite estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). E o verbo “tentar” fez todo o estrago nas expectativas para o próximo Copom.

Já o Broadcast – por meio das repórteres Célia Froufe e Adriana Fernandes – noticiou acertadamente de que o BC vai cumprir (e não apenas tentar) o objetivo de entregar a inflação dentro do limite estipulado pelo CMN, mas a confusão estava feita e somente foi desfeita quando Tombini disse que a troca de ministros não vai alterar o curso da política monetária.

Ou seja, o mercado entendeu essa mensagem como: a nomeação de Barbosa não vai impedir de o BC subir os juros em janeiro, desfazendo o movimento observado após o café da manhã de Tombini com os jornalistas.

Agora, até a reunião do dia 20 de janeiro, será preciso um fato novo muito relevante para o Copom não elevar a taxa de juros, sob pena de o BC assumir de vez a pecha de não ter autonomia e sofrer ingerência política.

Ficou muito difícil para Tombini desembarcar da alta de juros em janeiro após a sua declaração sobre a troca de ministros.

Se fizer isso, resultando na desconfiança de ingerência política sobre o BC, as expectativas inflacionárias correm o risco de disparar.

Daí, a atenção do mercado volta-se para o Relatório Trimestral de Inflação (RTI), que será divulgado nesta quarta-feira.

Para ser condizente com o discurso “hawkish” (inclinado ao aperto monetário) recente de Tombini e de outros diretores do BC, como Tony Volpon, o RTI terá que sinalizar a necessidade de subir juros.

Um trecho que pode conter essa mensagem, por exemplo, é o que mostra as projeções centrais de inflação do BC para a inflação em 2016, que devem ficar entre 6% e 6,1%. Para 2017, essas projeções podem ficar entre 4,6% e 4,7%.

Ao simplesmente se olhar para a projeção central, a primeira reação é: não é preciso subir os juros em janeiro.

Todavia, o que o mercado prestará atenção é como o BC caracterizará a probabilidade de estouro do teto da meta nas suas projeções centrais. Se o BC disser que a dispersão das estimativas em torno da projeção central aumentou, ou seja, que cresceu a probabilidade de estourar o teto da meta, o recado implícito é: o juro precisa subir em janeiro.

Por outro lado, se o BC não estiver mais tão determinado em elevar os juros – aumentando a desconfiança de ingerência política -, o RTI poderá suavizar o seu discurso recente.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast, serviço de informações financeiras em tempo real do Grupo Estado