Cunha cai do cavalo

O revés de Eduardo Cunha na votação da reforma política ontem foi um divisor de águas no cenário político

Fábio Alves

27 Maio 2015 | 13h43

Vai custar caro ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a derrota sofrida na noite de terça-feira na votação do sistema eleitoral conhecido como distritão no âmbito da reforma política em apreciação na Casa.

O poder de Cunha era não somente o de fato, mas o simbólico.

Até ontem, não se sabia precisamente a real força que o peemedebista tinha, mas se achava que Cunha tudo podia, inclusive conseguir arregimentar apoio suficiente para aprovar emendas constitucionais.

Depois de tantas vitórias importantes desde que se elegeu presidente da Câmara, Cunha fez o governo se curvar a ele, até demitindo um ministro da Educação.

O revés de ontem na votação da reforma política foi um divisor de águas no cenário político.

Agora, a presidente Dilma Rousseff e outros desafetos de Cunha passaram a ter noção tangível da limitação de poder do presidente da Câmara.

“Do ponto de vista institucional, a derrota de ontem mostrou que o poder principal do presidente da Câmara é menos o de definir o conteúdo final da matéria e mais a agenda e o ‘timing’ de votação da matéria, ou seja, quando e o quê vai ser votado”, explicou a esta coluna o cientista político da consultoria Tendências, Rafael Cortez.

Para Cortez, a derrota sofrida por Cunha ontem terá repercussões. “A política é feita do poder real e do simbólico”, afirmou o cientista político. “Havia uma imagem de que o Cunha estava se tornando paulatinamente o governante de fato, competindo, inclusive, com a presidente Dilma. Uma derrota em uma tese tão cara para Cunha, como é o distritão, é importante porque altera um pouco o balanço de poder, especialmente na opinião pública.”

Para o analista sênior da consultoria política Arko Advice, Cristiano Noronha, o revés na votação do distritão mostrou que Cunha “pode muito, mas não pode tudo”.

E a mudança da percepção sobre o tamanho do poder do presidente da Câmara é significativa, segundo Noronha.

“Imaginava-se que Cunha tinha a capacidade de aprovar qualquer coisa, inclusive emendas constitucionais”, disse o analista da Arko Advice. Agora, segundo ele, a real força do peemedebista foi delimitada.

Noronha lembra que a reforma política é um tema complexo e delicado que já havia causado derrotas a outros presidentes da Câmara. O erro estratégico de Cunha foi se impor um exíguo espaço de tempo para a votação do tema, atropelando até a Comissão criada para debater o assunto, sem que o peemedebista pudesse costurar com calma o apoio necessário para sair vitorioso na Casa.

Para o mercado financeiro, esse revés de Cunha é positivo, pois havia a percepção de que o presidente da Câmara estava ditando rumos da economia, com as manobras de votação das medidas do ajuste fiscal, por exemplo.

Os investidores conseguem confiar na política econômica do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, mas não sabem exatamente qual o horizonte dessa política se ela for ditada pelo presidente da Câmara.

Isso não significa, contudo, que foi Dilma que saiu vitoriosa na votação do distritão ontem. Cunha ainda terá grande poder de fogo para incomodar o governo daqui em diante, especialmente com a prerrogativa que ainda têm de colocar ou não em votação temas do interesse ou contrários ao governo.

Mas a derrota sofrida por Cunha ontem dá a sensação de que o sistema de governo no Brasil ainda é o presidencialismo e não o parlamentarismo.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast