De onde virá impulso positivo para o PIB em 2016

A surpresa que pode deflagrar uma rodada de revisões para cima do PIB não virá das exportações, mas sim de uma reversão significativa do cenário político

Fábio Alves

26 de outubro de 2015 | 16h40

O pessimismo em relação à economia brasileira em 2016 está aumentado de forma acelerada, haja vista a revisão na pesquisa Focus, divulgada hoje pelo Banco Central, das projeções para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no ano que vem, que passaram de contração de 1,22% para queda de 1,43%.

Diante das incertezas com o turbulento cenário político e o ceticismo em relação a um ajuste fiscal que melhore as contas públicas, de onde virá qualquer impulso positivo à atividade econômica em 2016?

“O impulso positivo vem de exportações líquidas – mistura de câmbio depreciado e recessão doméstica”, diz Bruno Rovai, economista para Brasil do banco Barclays, em conversa por telefone de seu escritório em Nova York. “Mas sem um aumento expressivo de preços de commodities ajudando nos termos de troca, o ganho não vai ser suficiente para compensar a queda da demanda domestica.”

Para Alberto Ramos, diretor de pesquisas para a América Latina do banco Goldman Sachs, as exportações líquidas deverão ser a única contribuição positiva para o PIB no próximo ano, em razão da depreciação do câmbio e da queda abrupta da absorção doméstica resultante da recessão.

“O consumo e o investimento estão em queda livre e isso significa menor importação, o que, combinado com um câmbio mais competitivo, resultará em exportações líquidas positivas em 2015 e 2016 “, observa Ramos, em conversa com esta coluna também de Nova York. “E basicamente a história termina aí, pois não vejo demanda externa muito forte alavancando o crescimento nem fluxo de capital acelerando para o Brasil e estimulando o crédito doméstico.”

Bruno Rovai, do Barclays, estima uma contração de 1,5% do PIB em 2016, mas vê riscos de uma recessão mais profunda.

“Os ciclos do mercado de trabalho tendem a ser longos, e por causa dos altos custos de contratar e demitir no Brasil, mesmo que o setor industrial e de serviços ensaiem alguma recuperação, o emprego vai demorar para se recuperar”, argumenta Rovai. “Isso vai jogar o consumo das famílias de novo para baixo”, acrescenta o economista do Barclays, que projeta contração de 2,8% no consumo das famílias em 2016.

Também Alberto Ramos, do Goldman Sachs, vê a queda no consumo das famílias como o principal vetor negativo para o desempenho da economia no ano que vem.

Ele explica que uma parte da queda no PIB do próximo ano será resultado da herança estatística da recessão de 2015, quando os analistas ouvidos pela pesquisa Focus estimam uma contração de 3,02%. Mas outra parte, segundo Ramos, virá da falta de confiança de investidores, empresários e consumidores, especialmente em razão da crise política, dos efeitos das investigações da Lava Jato e da baixa perspectiva para um ajuste fiscal mais significativo.

“Espero uma continuidade no arrocho do crédito em 2016 e uma deterioração adicional do mercado de trabalho”, diz Ramos.

Como o desemprego é uma variável macroeconômica cujo impacto é defasado – ao contrário de outros indicadores que antecipam um ciclo, como os índices de confiança -, o efeito da atual recessão sobre a renda e, portanto, sobre o consumo das famílias será mais visível em 2016 do que neste ano, segundo o economista do Goldman Sachs.

“Neste ciclo econômico, observamos primeiro a queda forte dos investimentos e agora estamos vendo a deterioração dos setores de serviços e de vendas ao varejo, ou seja, de setores que estavam alavancados na renda”, explica Ramos.

Por outro lado, ele vê avanços nas contas fiscais acontecendo mais por aumento da carga tributária do que corte dos gastos públicos, o que afetará ainda mais a renda.

Ramos projeta uma queda de 1% do PIB em 2016, mas com risco para ser uma contração maior.

Outro baque virá dos investimentos, segundo Bruno Rovai, do Barclays, até como reflexo das investigações da Operação Lava Jato. Rovai espera que os investimentos de ativos fixos, que devem cair 11% neste ano, sofram retração adicional de 2% em 2016.

Com tantos vetores negativos esperados para a atividade econômica de 2016, o que se reflete nas seguidas revisões do PIB para contração mais profunda, há um espaço importante para uma surpresa positiva.

E essa surpresa que poderia deflagrar uma rodada de revisões para cima do PIB não virá das exportações líquidas, hoje único vetor positivo citado pelos economistas acima, mas se houver uma reversão significativa do cenário político.

Ou seja, uma recuperação da economia está totalmente atrelada à retomada da governabilidade da presidente Dilma Rousseff, que permita não só um avanço no ajuste fiscal, como também numa redução das incertezas sobre a sua sobrevivência.

Mas essa surpresa ainda não faz parte do cenário base dos analistas e investidores.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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