Defesa frágil de marqueteiro ameaça uma Dilma isolada

Nova fase da Operação Lava Jato se aproxima de Dilma e movimento de impeachment da presidente pode voltar com força

Fábio Alves

26 Fevereiro 2016 | 10h40

Uma nova tempestade, com potencial turbulento grande, ameaça se aproximar do Palácio do Planalto: foi muito além de frágil a defesa de João Santana, marqueteiro das campanhas de Lula, de 2006, e de Dilma Rousseff, de 2010 e 2014, e de sua mulher, Mônica Moura, sobre os recursos recebidos nas contas “offshore” e não declarados à Receita Federal.

No seu depoimento à Polícia Federal, Santana disse ignorar a origem de US$ 7,5 milhões numa conta que possui na Suíça, mas que esses recursos não eram provenientes do Brasil. Ou seja, foi um “não sabia” seletivo.

O advogado dele, em entrevista à imprensa, justificou tal argumento dizendo que Santana é um “criador” (sim, na acepção dos “gênios” artísticos) e que a mulher dele era a responsável pela administração financeira da empresa do casal. Já Mônica não conseguiu dirimir todas as dúvidas, em particular de como um suspeito de ser operador de propinas do Petrolão ter pago conta de campanhas eleitorais realizadas em países como Angola.

A percepção é de que os depoimentos de Santana e de sua mulher abriram uma caixa de pandora no tocante às suspeitas que recaem sobre o financiamento das campanhas de Lula e de Dilma.

E no momento em que essa nova fase da Operação Lava Jato chega muito próximo da presidente Dilma, as relações dela com o Partido dos Trabalhadores nunca estiveram tão estremecidas.

No ano passado, no auge das pressões para o impeachment da presidente – movimento articulado por grupos do PMDB e pela oposição – foi o PT que veio em sua defesa, com papel relevante de Lula.

Agora, depois de a presidente encampar a reforma da Previdência e apoiar a aprovação no Senado do projeto que tira da Petrobras a exclusividade na exploração de petróleo no pré-sal, o clima no PT em relação à Dilma é de desabrida animosidade.

“Eu não faria questão da presença dela (Dilma), mas falo em meu nome, não do partido”, afirmou o prefeito de Maricá e presidente do PT fluminense, Washington Quaquá, ao se referir à festa de aniversário de 36 anos do partido que acontecerá neste sábado (27) no Rio de Janeiro.

Do lado da presidente, as notícias de bastidores dizem que Dilma também não quer ir ao evento, descontente de ver a condução da economia por seu governo torpedeada constantemente pelo seu partido.

Aliás, o PT lança nesta sexta-feira o seu Programa Nacional de Emergência, o qual parece mais um plano econômico de retaliação à presidente, com pontos explosivos como o uso das reservas cambiais do Brasil para estimular a economia.

Com o mesmo potencial eleitoralmente explosivo que as denúncias envolvendo a suspeita de que o ex-presidente Lula é dono de um sítio em Atibaia e de um tríplex no Guarujá, cujas obras de reformas teriam sido custeadas por empreiteiras investigadas na Lava Jato, o noticiário sobre o pagamento dos serviços prestados pelo marqueteiro João Santana pode mergulhar Dilma numa grave crise de governabilidade.

Assim, o movimento de impeachment da presidente pode voltar com força.

Mais ainda: tem o potencial de pegar Dilma mais isolada do que nunca, uma vez que a presidente decidiu não ficar refém às exigências do PT na condução da economia brasileira.

Resta ver se o Palácio do Planalto vai colher os benefícios de ter gasto tanta artilharia para eleger Leonardo Picciani (RJ) como novo líder do PMDB na Câmara dos Deputados.

Conseguirá Picciani barrar o avanço do processo de impeachment na Câmara?

Com base no histórico do desfecho das articulações políticas desde que Dilma assumiu o governo, em 2011, a resposta seria não. Todavia, não é prudente descartar assim a capacidade de Picciani, mas ele e Dilma têm como rival Eduardo Cunha, o presidente da Câmara.

Enquanto os embates no Congresso em torno do processo de impeachment não acontecem, o noticiário envolvendo o marqueteiro de Dilma pode alimentar a batalha pela opinião dos eleitores em relação ao impedimento da presidente.

Mais conteúdo sobre:

Dilma RousseffJoão SantanaLava Jato