Dólar a R$ 5,00

Quem vai chegar primeiro a R$ 5,00: a cotação do dólar, a ação da Petrobrás ou o preço da gasolina?

Fábio Alves

24 de agosto de 2015 | 13h36

Em conversa com esta coluna, um gestor de um importante fundo de investimento fez a seguinte previsão:

A acelerada trajetória de deterioração das contas fiscais, num horizonte de gastos públicos crescendo bem acima das receitas e de aumento ininterrupto da relação dívida/Produto Interno Bruto (PIB), poderá levar o dólar a R$ 5,00 nos próximos 18 meses em meio a um cenário de maior turbulência política no Brasil e de algum choque externo – via alta de juros nos Estados Unidos ou instabilidade causada pela desaceleração econômica na China.

Outros interlocutores desta coluna reagiram com ceticismo ao ouvir tal previsão, tachada por alguns de alarmista:

É possível dólar a R$ 5,00 em 18 meses? Sim, pois em se tratando de câmbio tudo é possível, mas é pouco provável.

Será mesmo?

A primeira observação a se fazer é que as projeções para o câmbio ao fim de 2015 e de 2016 contidas na pesquisa Focus, divulgada nesta segunda-feira pelo Banco Central, parecem já defasadas em termos da desvalorização do real.

A mediana das estimativas dos analistas ouvidos pela Focus é de um dólar a R$ 3,50 no fim deste ano e de R$ 3,60 no fim de 2016.

Um estrategista de câmbio de uma importante instituição financeira disse, em conversa com esta coluna, que a sua estimativa para o câmbio já está defasada e que, provavelmente, teria que acrescentar 30 centavos de real ao número estimado para o fim de 2015 (R$ 3,55) e para o fim de 2016 (R$ 3,70).

Entre os riscos para o patamar do câmbio, esse estrategista cita maior turbulência política, contínua deterioração dos resultados fiscais e um eventual erro de política monetária.

“Por erro de política monetária, eu me refiro ao Banco Central começar a cortar a taxa Selic antes do necessário”, afirmou.

Segundo esse estrategista, as pressões vindas da China – levando a uma queda adicional nos preços das commodities – já justificam um dólar mais valorizado não somente no Brasil, como também nos países latino-americanos dependentes das exportações de matérias-primas.

“A mudança na política cambial por parte do governo chinês é preocupante”, disse.

Diante das incertezas externas (China e alta de juros pelo Federal Reserve), o prêmio de risco tem de subir para os países emergentes como um todo.

Associado a essas incertezas externas, o risco de um desvio ainda maior das projeções para os números fiscais do Brasil em razão da turbulência política pressupõe um real mais desvalorizado do que está no preço das estimativas atuais para o câmbio, segundo o estrategista acima.

Nos cálculos do gestor de um importante fundo de investimentos, ouvido no início desta coluna, o quadro fiscal hoje – após as derrotas do governo no Congresso das medidas do ajuste – leva a crer que a dívida bruta/PIB superará facilmente o patamar de 70% no curto prazo.

No último número disponível, para o mês de junho, a dívida havia atingido 63% do PIB.

Mas, então o dólar a R$ 5,00 não é tão improvável assim?

Um renomado economista brasileiro, com um longo serviço prestado em Brasília no seu currículo, argumentou a esta coluna que a discussão mais importante agora não é uma estimativa para a cotação do dólar per se.

Mas se o Brasil corre ou não o risco de sofrer uma desvalorização desordenada neste momento.

O cenário de uma desvalorização ordenada embute uma situação doméstica no Brasil sob controle e que o País tenha condições de absorver um choque externo, via China ou alta de juros pelo Federal Reserve.

Com juros básicos a 14,25% ao ano e reservas internacionais de US$ 375 bilhões, é razoável dizer que o Brasil estaria preparado para aguentar um tranco externo.

Só que nessa equação entra elementos como o cenário político, via fragilidade do governo Dilma Rousseff, e uma deterioração mais aguda do ambiente macroeconômico.

“São incertezas como: o que vai ficar no lugar do arranjo no qual o vice-presidente Michel Temer fazia a coordenação política?”, indagou o economista. “O que acontece com a aprovação das medidas do ajuste fiscal para 2016, diante da relação estremecida da presidente Dilma com o Congresso?”

Além disso, se o governo Dilma voltar a adotar medidas econômicas que foram implementadas no seu primeiro mandato e que deram errado, o mercado punirá o Brasil, exigindo maior prêmio de risco.

Basta a combinação negativa de alguns desses fatores acima – juntamente com algum choque externo – para deixar o mercado nervoso e ocorrer um “overshooting” no câmbio. Nesse cenário, um dólar a R$ 5,00 ainda é uma previsão alarmista, mas plausível.

É preciso ressaltar que o patamar do câmbio hoje – a R$ 3,5440 por volta do meio-dia desta segunda-feira, com alta de 1,5% – já embute um cenário de piora nas contas fiscais e de um ambiente político turbulento.

A questão é: precisa incorporar mais prêmio de risco para refletir, com mais realismo, o cenário político e econômico (retração mais forte do PIB, por exemplo)?

Sim, ainda é preciso incorporar mais prêmio de risco.

Mas, daí vale a pena citar a piada que corre nas mesas de operação:

– Quem vai chegar primeiro a R$ 5,00: a cotação do dólar, a ação da Petrobrás ou o preço da gasolina?

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