Dólar ainda cai para R$ 3?

Se quisesse sinalizar a intenção de estabelecer um piso para o dólar, a intervenção do BC seria bem maior do que leilões de US$ 750 milhões

Fábio Alves

11 de agosto de 2016 | 13h41

Apesar de o Banco Central ter decidido acelerar o ritmo de intervenção no mercado cambial, via contratos de swap reverso, passando a realizar leilões de US$ 500 milhões para US$ 750 milhões, uma pergunta ainda é válida: poderá o dólar ainda experimentar um movimento de “undershooting” frente ao real no curto ou médio prazo?

No fechamento da sessão de negócios ontem, o dólar caiu para R$ 3,1295, menor patamar desde 2 de julho de 2015.

Há interlocutores desta coluna que consideram como uma taxa de equilíbrio para o câmbio um patamar entre R$ 3,20 e R$ 3,25, porém isso não quer dizer que, temporariamente, o dólar não possa registrar um “undershooting”, caindo para R$ 3,00, ou até um pouco abaixo.

E essa é uma possibilidade concreta porque o Banco Central sob a gestão de Ilan Goldfajn, ao contrário do que foi visto pelo mercado como a tônica de Alexandre Tombini na presidência da instituição, tem seguido com ações o que tem sido sinalizado.

No caso do mercado cambial, Goldfajn repetiu várias vezes que não tem meta para a taxa de câmbio, não está buscando estabelecer um piso para a cotação do dólar e tem como objetivo reduzir o volume de estoque de swaps cambiais. Esse estoque vem sendo reduzido ao longo do tempo: está ao redor de US$ 48 bilhões, mas já superou US$ 100 bilhões.

O que transparece na decisão do BC de elevar os leilões de swap reverso é uma provável estimativa de aumento de entrada do capital estrangeiro, abrindo uma janela de oportunidade.

A abundância de liquidez internacional, dadas as últimas ações de bancos centrais de países desenvolvidos, de cortar os juros básicos (alguns para taxas negativas) ou injetar mais estímulos monetários (via compra de ativos), alimenta essa expectativa de maior fluxo para o Brasil.

Também a maior confiança do investidor estrangeiro em relação à adoção de um ajuste macroeconômico tem aberto o caminho para fluxos mais duradouros que não somente o capital de portfólio que se aproveita do diferencial de taxas de juros.

Um exemplo disso é a invasão das estatais chinesas no setor elétrico brasileiro. Na terça-feira passada, por exemplo, notícias de bastidores deram conta que a State Grid deseja comprar a participação de 29,4% da Previ, maior fundo de pensão da América Latina, na CPFL. Em junho, a estatal chinesa comprou 23,6% da CPFL Energia que pertenciam à empreiteira Camargo Corrêa, numa operação que pode chegar a R$ 26 bilhões.

Assim, o BC brasileiro pode estar mirando num aumento de fluxo de capital estrangeiro como uma oportunidade única para reduzir ao máximo o estoque de swaps.

Se quisesse sinalizar a intenção de estabelecer um piso para o dólar, a intervenção seria bem maior do que leilões de US$ 750 milhões.

Sem o BC mirar um piso – e deixar isso claro -, o ambiente externo e o fluxo de capital, além de certo otimismo com o ajuste fiscal doméstico, poderão colocar pressão baixista sobre o dólar. Nessa fotografia, não se pode descartar um dólar caindo para R$ 3,00 no curto prazo.

Isso não seria surpresa, da mesma forma que em momentos de estresse, o mercado experimenta o movimento oposto, de “overshooting”.

Mesmo que o dólar volte para o patamar que alguns interlocutores consideram como uma taxa de equilíbrio – pouco acima de R$ 3,20 -, o câmbio ainda favorecerá a inflação.

Por enquanto, não se observou um efeito maior do nível atual do câmbio levando a uma maior desaceleração da inflação porque os preços de alimentos seguem pressionados por outros fatores, como climáticos. Aliás, os preços de alimentos são os que reagem mais rapidamente a câmbio do que os de produtos industriais.

O vento a favor do mercado externo ainda será um catalisador importante para o patamar do dólar e o BC de Ilan Goldfajn está sinalizando que é contraproducente remar contra o vento.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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