Dólar entrou em queda, mas até quando?

Dólar entrou em queda, mas até quando?

Continuidade da queda na cotação iniciada na sexta-feira vai depender dos dados de atividade econômica e da inflação americana, que podem tornar o Fed mais ou menos paciente

Fábio Alves

23 de março de 2015 | 12h49

 

Olho no dólar: alívio na cotação é duradouro?

Olho no dólar: alívio na cotação é duradouro?

Depois de cair fortemente na sexta-feira passada, o dólar começa esta segunda-feira em queda significativa frente ao real, levando vários analistas a questionar se a valorização recente da moeda americana foi exagerada e por quanto tempo a correção da sua cotação poderá durar.

Dois fatores contribuíram para o recuo da moeda americana em relação ao real desde o final da semana passada. Primeiro, a sinalização dada pelo Federal Reserve (Fed) de que uma elevação dos juros nos Estados Unidos não é tão iminente como se acreditava antes da reunião da autoridade monetária na última quarta-feira. Segundo, a percepção dos investidores de que melhorou o apoio político para a aprovação no Congresso das medidas do ajuste fiscal.

Na sexta-feira, o dólar recuou 1,76% frente ao real, fechando a semana passada cotado a R$ 3,2370. Apenas no dia anterior, a moeda americana havia superado a barreira de R$ 3,30, maior nível desde abril de 2003. Por volta das 11h55 da manhã desta segunda-feira, o dólar caía 1,85%, a R$ 3,1770.

Mesmo com a queda registrada desde sexta-feira, o dólar já acumula alta de 11,3% em março e de 19,7% neste ano.

Uma trégua na crise política entre o governo Dilma Rousseff e os líderes do Congresso poderá levar a uma recuperação maior das perdas recentes sofridas pela moeda brasileira, se o cenário externo seguir mais tranquilo, isto é, se os investidores apostarem que o Fed não deve subir os juros americanos no curtíssimo prazo.

Como a nova equipe econômica nomeada para o segundo mandato da presidente Dilma acredita que uma cotação maior do dólar faz parte do ajuste que o Brasil precisa passar, reduzindo desequilíbrios como o déficit de conta corrente, o teste da disposição do governo em relação a esse alívio no câmbio dos últimos dois dias poderá ocorrer se o dólar ensaiar uma volta para um patamar próximo de R$ 3,00 com a mesma velocidade que disparou para R$ 3,30.

E o termômetro dessa disposição será a posição do Banco Central em relação ao seu programa de swap cambial, previsto para durar até o fim deste mês. A expectativa de investidores e analistas é de que o BC anuncie o fim da ração diária, isto é, a colocação de US$ 100 milhões em leilões de swaps cambiais, mas que a autoridade monetária continue fazendo a rolagem do estoque desses contratos, atualmente mais de US$ 113 bilhões.

Essa expectativa do mercado está embutida na cotação do câmbio. Para os investidores, enquanto a inflação estiver pressionada e as expectativas inflacionárias sem mostrar maior convergência para a meta de 4,5%, o BC não terá pressa em reduzir o estoque de swaps cambiais com maior intensidade.

Mas a trajetória – e a sua velocidade – do dólar frente ao real vai ser um teste da disposição do governo em deixar o câmbio flutuar mais livremente.

No exterior, o dólar vem experimentando desde o final da semana passada uma correção frente às principais moedas internacionais diante da percepção de que o Fed vai aguardar a divulgação de novos indicadores econômicos antes de comunicar com mais clareza o início do ciclo de aperto monetário. E esse recuo beneficia também o real, a moeda emergente que mais sofreu com as apostas crescentes de uma elevação dos juros americanos pelo Fed no curto prazo.

Até a reunião de política monetária do BC americano na quarta-feira passada, a maioria de investidores e analistas apostava em junho como o início do ciclo de alta de juros nos EUA. Após o encontro, essa aposta foi adiada para setembro.

O Fed retirou a expressão “paciente” do comunicado que acompanhou sua decisão de política monetária – como esperavam os investidores -, mas revisou suas projeções para o crescimento da economia, a taxa de desemprego, a inflação e o nível dos juros para 2015, 2016 e 2017, sinalizando com as novas estimativas de que não está com tanta pressa para subir os juros.

Assim, o alívio à cotação do real vindo de fatores externos – em particular a aposta para o início da alta de juros nos Estados Unidos – vai depender da divulgação dos dados de atividade econômica e da inflação americana, os quais podem tornar o Fed mais ou menos paciente.

No lado doméstico, apesar da crise política deflagrada com mais intensidade após a divulgação da lista de políticos a serem investigados no âmbito da Operação Lava Jato, o governo conseguiu nos últimos dias conquistar mais apoio à aprovação das medidas provisórias do ajuste fiscal desde que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, passou a negociar diretamente com os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros.

Além disso, o governo conseguiu uma vitória ao nomear dois aliados para relatores das MPs do ajuste: MP 664, sobre o pagamento do auxílio-doença e pensão por morte, terá como relator o líder do PP na Câmara, Eduardo da Fonte (PE). Já para a relatoria da MP 665, a que trata do seguro-desemprego, foi escolhido o senador Paulo Rocha (PT-PA).

Assim, a duração do recuo do dólar frente ao real dependerá de uma melhora na crise política e no apoio ao ajuste fiscal, da posição do BC em relação ao seu programa de swap cambial e também de o Fed seguir paciente sobre o início do seu ciclo de aperto monetário.

* Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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