Dólar pode cair mais após o balanço da Petrobrás?

Dólar pode cair mais após o balanço da Petrobrás?

Fábio Alves

22 de abril de 2015 | 13h41

Foto: Morgue File

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Dois fatores podem deflagrar uma queda maior na percepção de risco soberano do Brasil e, por tabela, exercer pressão de baixa sobre o dólar: a publicação do balanço auditado da Petrobrás e, no seu rastro, uma emissão de dívida externa pelo Tesouro Nacional.

Os olhos do mercado financeiro voltam-se hoje para a publicação do balanço da Petrobrás, com os investidores ansiosos pela divulgação das perdas relacionadas aos desvios com corrupção e também pela reavaliação do valor dos ativos da estatal, com o chamado teste de impairment (ou o teste de “recuperabilidade” – valor recuperável – dos ativos).

Em relatório enviado a clientes, os analistas do Bank of America Merrill Lynch afirmaram que um impairment de ativos entre US$ 10 bilhões e US$ 30 bilhões pela Petrobrás deve ficar em linha com a grande variedade de expectativas do mercado. Para os analistas do banco, um número abaixo de US$ 10 bilhões seria uma decepção, enquanto um número muito acima de US$ 30 bilhões pode causar preocupações.

Também em relatório a clientes, o banco UBS disse que, enquanto a imprensa projeta uma baixa contábil com perdas entre R$ 14 bilhões e R$ 28 bilhões, das quais entre R$ 6 bilhões e R$ 8 bilhões relacionadas à corrupção e até R$ 20 bilhões de registro de impairment, os analistas de Petrobrás do UBS estimam um valor de impairment de R$ 25 bilhões para o ano de 2014.

Assim, se o balanço auditado da Petrobrás for bem recebido pelo mercado com números críveis e considerados realistas, há ainda potencial para queda adicional da percepção de risco soberano do Brasil, medido pelos contratos de 5 anos de Credit Default Swaps (CDS)? E, por tabela, o dólar poderia cair mais frente ao real?

“Uma parte das boas notícias já estão incorporadas ao CDS: depois de alcançar o pico em março, ele começou a cair logo depois do último Fomc (reunião de política monetária do Federal Reserve)”, afirmou o economista-chefe de um fundo de investimentos no bairro paulistano do Itaim. “Desde então, com um pouco mais de um mês, o CDS brasileiro já caiu 85 pontos ou aproximadamente 28% e, no mesmo período, o papel da Petrobrás andou pouco mais de 50%.”

Para a fonte acima, se for o balanço da Petrobrás for bem recebido, o spread do CDS deve fechar um pouco mais e o dólar pode cair momentaneamente para abaixo de R$ 3. “Mas isso não muda o cenário estrutural para o real, que continua sendo a moeda de um país muito frágil”, disse.

Já o estrategista de câmbio de uma importante instituição financeira paulista acredita que se o balanço auditado da Petrobrás for bem recebido, o CDS de 5 anos do Brasil pode voltar para um patamar de 200 pontos-base (bps), em comparação com o nível atual ao redor de 227bps.

“Nossos modelos apontam hoje que uma queda de 10% no CDS (nosso cenário) apontaria para uma apreciação de 1% no real”, acrescentou.

E o que seria uma boa recepção para o balanço da estatal?

“Não acredito que o foco será tanto nos valores, mas mais na transparência das informações, e o aval dos auditores e da SEC (a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA)”, disse o estrategista acima.

De todo modo, ele considera que o patamar do dólar de R$ 3,00 é um suporte psicológico importante.

“Mas dado que temos um calendário com vários eventos até o final deste mês (balanço da Petrobrás, reunião do Copom, reunião do Fomc e também de ministros das finanças europeus sobre a questão da Grécia), é possível que testemos R$ 2,95, caso tudo se alinhe”, explicou a fonte acima.

Muitos interlocutores desta coluna acreditam que, como a grande parte do evento de divulgação do balanço da Petrobrás já está precificada pelo mercado, um novo catalisador de apreciação do real seria a volta do Tesouro Nacional emitindo títulos no exterior, balizando um patamar para o retorno ao mercado de emissores privados brasileiros.

“É limitado o potencial de impacto adicional da divulgação do balanço da Petrobrás sobre o nível do CDS soberano e também sobre o dólar”, afirmou um diretor de uma administradora de recursos. “O que pode vir a melhorar a percepção de risco e também ter impacto sobre o dólar é a emissão de papéis pelo Tesouro, que o mercado espera para breve.”

Na opinião da fonte acima, uma demanda forte pelos títulos emitidos pelo Tesouro no exterior – o que poderia ser um selo de confiança ao Brasil e às medidas adotadas pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy – poderá fazer o dólar recuar mais ainda frente ao real.

Mas para o Tesouro voltar a emitir dívida externa, o primeiro passo será tirar uma grande incerteza sobre o Brasil, que é a divulgação do balanço da Petrobrás.

Esses dois fatores podem deflagrar um ponto de inflexão na crise de confiança que o Brasil vem enfrentando em 2015.

* Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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