E se os bancos centrais estiverem equivocados?

E se os bancos centrais estiverem equivocados?

Afrouxamento monetário pode não ser a arma mais eficiente contra a inflação baixíssima nos países desenvolvidos

Fábio Alves

16 Fevereiro 2016 | 13h52

A nova postura “super dovish” (inclinados ao afrouxamento monetário) dos principais bancos centrais do mundo é a resposta necessária e correta para a atual ameaça conjunta da baixíssima inflação (obviamente nos países desenvolvidos e não no Brasil) e o cada vez menor crescimento econômico?

Em relatórios a clientes, os analistas de bancos como o alemão Commerzbank e o americano JP Morgan põem em dúvida tal estratégia.

“The last bit of confidence into central banks has been lost” (ou algo como “O último pedaço de confiança nos bancos centrais se perdeu”) é o título da nota escrita por Ulrich Leuchtmann, do Commerzbank, na qual ele observa que os efeitos da redução dos juros para taxas negativas pelo Banco do Japão (BoJ) se dissiparam muito rapidamente tanto pelos defeitos da sua elaboração quanto pelo pessimismo de participantes do mercado sobre o potencial de seu impacto sobre a cotação do iene.

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Sede do banco central do Japão em Tóquio (Foto: Reuters)

Leuchtmann disse observar também grande ceticismo de seus clientes em relação à possível adoção de estímulos agressivos pelo Banco Central Europeu (BCE). O analista do Commerbank admite ser um descrente em relação às políticas monetárias expansionistas e nota que medidas neokeynesianas estão dominando o mundo acadêmico e os bancos centrais nos dias atuais.

“Temo que, ao menos, após a grande recessão, o mundo realmente não esteja operando na maneira do neokeynesianismo”, escreve Leuchtmann.

Já o estrategista-chefe de câmbio do JP Morgan, John Normand, disse, em nota a clientes, que a adoção de taxas de depósitos/políticas negativas na região do euro, no Japão e na Suécia não alterou suas estimativas de câmbio para essas moedas alvos (ou seja, target fx rates) por dois motivos.

O primeiro porque os bancos centrais estão respondendo dessa forma ao fenômeno global de inflação excessivamente baixa e de riscos ao crescimento econômico e, segundo, porque as taxas negativas de juros e os programas de compra de ativos passaram a exibir retornos menores do que quando foram adotados pela primeira vez.

“Bancos centrais ‘dovish’ são um fenômeno global”, diz Normand.

Segundo ele, para essa estratégia funcionar e o mecanismo de transmissão ser o mais eficiente é preciso que a moeda doméstica esteja cara (mais apreciada) e excessivamente comprada (“over-owned”); que o BC doméstico esteja afrouxando unilateralmente; que o país que esteja afrouxando a sua política monetária tenha um déficit de conta corrente; ou que o crescimento econômico externo (de outros países) seja robusto.

O problema com as medidas tomadas por Japão, Suécia e da região do euro é que nem todas essas condições estão presentes. Por exemplo, Japão e a Europa têm grandes superávits de conta corrente e não déficits. E o crescimento das economias emergentes está cada vez mais baixo.

Em conversa com esta coluna, um renomado economista brasileiro explica que, no âmago da questão, está o fato de que banco central não foi feito para gerar crescimento econômico de longo prazo e sim para controlar a inflação ou mitigar os movimentos do ciclo econômico naqueles países onde tenham mandato duplo.

“Essas economias maduras estão com problemas estruturais sérios: produtividade em forte queda e envelhecimento da população”, diz o economista brasileiro.

Assim, quando um banco central relaxa a sua política monetária, ele cria o incentivo para o endividamento das pessoas, as quais antecipam o consumo ou o investimento que fariam no futuro, gerando mais crescimento no curto prazo.

“Só que, ao longo do tempo, a capacidade de trazer para o presente o consumo e o investimento do futuro vai se exaurindo, com um impacto menor do relaxamento monetário do BC”, afirma a fonte acima.

Essa estratégia de BCs “super dovish” até funcionou após a crise financeira mundial de 2008, pois apagaram um incêndio. No entanto, a reconstrução da economia após o incêndio apagado pelos BCs dependia de reformas estruturais, o que dependia dos políticos de cada país. Somente com essas reformas é que se poderia aumentar a produtividade, que é a fonte de crescimento econômico no longo prazo.

Todavia, essas reformas não foram aprovadas pelos políticos e os bancos centrais seguem apagando um incêndio, o que, por tabela, diminui o incentivo para a aprovação dessas reformas. Mas a eficácia das suas medidas de estímulo monetário já não é a mesma. Pior: vai ficando cada vez menor.

“A discussão atual é: quão limitada é a atuação desses bancos centrais a partir do momento que se encontra limites nominais zero das taxas de juros”, diz o renomado economista brasileiro. “Se os juros nominais estivessem em quatro e a redução fosse para zero, o impacto seria grande, mas agora o ponto de partida já é próximo de zero.”

Daí, quão negativa teria de ser essa taxa para ter algum efeito?

Sem reformas estruturais para estimular o crescimento econômico de longo prazo, o que os bancos centrais vão acabar fazendo é reforçar um ciclo de maior endividamento e baixo crescimento via estímulos monetários agressivos.

Não é à toa que, apesar dos estímulos monetários injetados, a expectativa de crescimento do PIB dos países desenvolvidos vem sendo reduzida nos últimos meses.

Assim, políticas que afetem o crescimento no médio e longo prazo não são atribuições dos bancos centrais.

E os investidores já perceberam isso. Só faltam as autoridades monetárias ao redor do globo.