Por que a atividade econômica está perdendo o fôlego

Por que a atividade econômica está perdendo o fôlego

Há no ar um componente de fraqueza na demanda que já afeta até as expectativas inflacionárias. Mas os preços administrados, como gasolina, transportes públicos e energia elétrica, não devem ser tão represados em 2015 como neste ano

Fábio Alves

11 de agosto de 2014 | 15h35

Dados das rodovias pedagiadas confirmam desaceleração (Clayton de Souza/Estadão)

A projeção do crescimento da economia brasileira em 2014 é revisada para baixo pela décima semana consecutiva na pesquisa semanal Focus, do Banco Central, o que reflete o sentimento
entre analistas é que a economia brasileira entrou neste terceiro trimestre apresentando uma nítida perda de fôlego.

Conforme a Focus, as estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2014 caíram de uma expansão de 0,86% para apenas 0,81%. Há quatro semanas,  a expectativa era de um crescimento de 1,05%. Para 2015, a estimativa de expansão também recuou, caindo de 1,50% para um crescimento de 1,20%.

Na sexta-feira passada, por exemplo, a Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR) informou que o fluxo total de veículos nas estradas pedagiadas do Brasil caiu 2,2% em julho, descontados os efeitos sazonais, na comparação com junho. Em relação a julho do ano passado, o fluxo total recuou de 2,4%.

Também na semana passada, saiu o índice de atividade de gerentes de compra (PMI, na sigla em inglês) do setor de serviços no Brasil, que caiu para 50,2 em julho, de 51,4 em junho. Foi o resultado mais baixo desde janeiro deste ano.

Se a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou um aumento de 17% em julho ante junho na produção de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus no mercado brasileiro (mas com queda de 20,5% sobre julho de 2013), de outro, o preço dos automóveis novos caiu 0,29% em julho sobre junho, conforme o resultado do IPCA do mês passado, divulgado hoje pelo IBGE.

Uma interpretação desses dois dados aponta para o tamanho dos estoques de automóveis. E o que se faz para vender o estoque que vai se acumulando? Baixa-se o preço dos produtos.

Aliás, o acúmulo de estoques é mais nítido no setor automobilístico, mas está cada vez mais disseminado por vários setores da indústria brasileira.

E isso pôde ser observado na última pesquisa sobre níveis de estoques da Fundação Getúlio Vargas (FGV): aumentou significativamente o número de setores da indústria reportando um nível indesejado de estoques, enquanto que caiu o número dos setores que relataram estar com estoques abaixo de desejável.

Assim, fica claro que os empresários brasileiros se prepararam desde o início do ano para uma demanda mais forte, a qual não se materializou. Resultado: os estoques estão se acumulando, o que aponta para um nível mais baixo da produção industrial nos próximos meses.

E não somente a produção industrial, como também toda a atividade econômica mais à frente pode sofrer se as indústrias pisarem no freio da produção para baixar os níveis de estoques.

Há um risco de o PIB no terceiro trimestre voltar a decepcionar. Há quem esteja trabalhando com crescimento muito próximo de zero para a economia entre julho e setembro deste ano.

Até mesmo o aumento na produção e venda de automóveis em julho (com base nos dados da Anfavea e Fenabrave) não foi considerado o suficiente para compensar as quedas registradas em maio e em junho. Esperava-se uma recuperação mais forte, até para que se gerasse um otimismo maior para o início do terceiro trimestre.

E nesse ponto pode-se deduzir que, finalmente, a atividade econômica já estaria sentindo o impacto mais amplo do aperto monetário de 3,75 pontos porcentuais adotados pelo Banco Central desde abril de 2013.

Obviamente, há um elemento de ruído na fraqueza das vendas e da produção de bens e serviços registrada em junho em razão da Copa do Mundo e feriados associados ao evento esportivo. Então, não dá para saber totalmente o que da queda na atividade foi reflexo do aperto monetário e o que foi impacto das paralisações provocadas pela Copa do Mundo.

Todavia, o sentimento é que não se espera no terceiro trimestre uma volta integral das perdas na economia registradas ao longo do segundo trimestre. E isso terá implicações para a demanda e, por tabela, para a inflação.

O IBGE divulgou que IPCA fechou julho com alta 0,01%, ante uma variação de 0,40% em junho e também abaixo da mediana das estimativas do AE Projeções, que era de alta de 0,09%. Em 12 meses, a inflação acumulada bateu 6,50%, bem no teto da meta fixada pelo BC.

Obviamente, a surpresa no índice mensal deve-se a razões sazonais, pois a inflação geralmente cede em meados do ano, como no mês de julho.

Mas há, sim, um componente de fraqueza na demanda já afetando não somente os índices de preços ao consumidor, como também as expectativas inflacionárias. Tanto que, para 2015, muitos analistas preveem uma alta bem menor nos preços livres do que se espera para 2014.

Assim, os preços que respondem à política monetária estão começando a dar sinais de desaceleração. O outro lado da moeda é que os preços administrados, como gasolina, transportes públicos e energia elétrica, não devem ser tão represados em 2015 como foram nos últimos dois anos.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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