Estresse de Dilma bate turbulência da China

As recentes más notícias no front político agravaram a percepção de fragilidade do governo Dilma Rousseff

Fábio Alves

26 de agosto de 2015 | 13h03

O risco político no Brasil está causando um estrago maior na cotação do real do que a turbulência da China e está levando muitos investidores a rever um piso para o patamar do dólar frente à moeda brasileira, além de abrir espaço para uma desvalorização adicional.

As recentes más notícias no front político somente agravaram a percepção de fragilidade do governo Dilma Rousseff, elevando o risco de novo fracasso em conseguir aprovar medidas de um ajuste fiscal para 2016. Isso reforça o sentimento de um possível déficit primário também no ano que vem. O reflexo está no câmbio.

Basta ver o que está acontecendo em agosto.

No acumulado deste mês até o final da sessão de negócios na segunda-feira, dia 24, chamada por muitos de “black Monday”, depois que o tombo da bolsa chinesa espalhou pânico nos mercados mundiais, o real não aparecia entre as dez moedas emergentes com as maiores quedas frente ao dólar, lideradas pelo rublo russo (-10,4%) e o peso colombiano (-9,9%).

Isso foi possível, em grande parte, devido à injeção de otimismo provocado pelo “acordão” entre Dilma Rousseff e o presidente do Senado, Renan Calheiros. Para muitos interlocutores desta coluna, esse acordão permitiu a Dilma não somente ganhar fôlego diante da pressão pelo seu impeachment, como também deu esperança de aprovação de medidas favoráveis a um ajuste fiscal de melhor qualidade para 2016.

Mas ao adicionar as variações acumuladas do mês registradas nos pregões de terça-feira e da manhã de hoje – até às 10h45, horário de Brasília -, o real sobe para o sexto pior desempenho entre as moedas emergentes, com perda de 5%.

Ou seja, mesmo ao longo de um mês em que o banco central chinês (PBoC, na sigla em inglês) promoveu desvalorizações do yuan e introduziu injeções de estímulos na economia, provocando instabilidade dos mercados globais, o real vinha conseguindo evitar um desempenho relativo pior do que as outras moedas emergentes.

Até porque muitos investidores haviam imaginado que, após o tombo registrado pelo real em julho, a moeda brasileira encontraria alguma estabilidade frente ao dólar. Ou seja, que a desvalorização observada no mês passado teria levado o real mais próximo de um preço de equilíbrio.

Em julho, o real foi a terceira moeda emergente no ranking das maiores perdas frente ao dólar, com queda de 8%, atrás apenas do peso colombiano (-8,4%) e o rublo (-9,5%).

Mas a saída do vice-presidente, Michel Temer, do comando da coordenação política do governo injetou uma dose de insegurança nos analistas e investidores sobre a verdadeira disposição do PMDB em dar apoio à aprovação de medidas fiscais no Congresso, visando uma melhora do resultado primário de 2016.

E o resultado do julgamento ontem à noite no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) abriu nova fonte de incerteza sobre se a presidente Dilma conseguirá terminar o seu mandato ao fim de 2018. A maioria dos ministros da Corte votou ontem pela investigação de possíveis abusos na campanha pela reeleição da presidente. O julgamento foi suspenso após pedido de vista e, se não houver mudança de votos, Dilma e o vice-presidente, Michel Temer, serão intimados a apresentar sua defesa.

Com isso, o humor dos investidores em relação ao real azedou de vez.

Se o cenário internacional seguir turbulento, especialmente com notícias negativas vindas da China, as incertezas políticas e a continuidade de indicadores ruins de atividade no Brasil dificilmente permitirão o real voltar a um patamar menos desvalorizado frente ao dólar.

Um gestor de um fundo de investimentos disse a esta coluna que, se as condições externas e do cenário político e econômico doméstico permanecerem em ebulição, um retorno do dólar para um patamar de R$ 3,40, por exemplo, levaria muitos investidores a entrar comprando dólar.

O que preocupa não é nem tanto o piso para o patamar do dólar frente ao real, mas o fato que ninguém se atreve hoje a prever um teto para o câmbio.

Resta ver como o Banco Central brasileiro vai se comportar perante a uma desvalorização adicional do câmbio.

Se, de um lado, o ajuste tem de ser mesmo via câmbio, de outro, o seu objetivo de fazer a inflação convergir para o centro da meta, de 4,5%, ao fim de 2016 fica mais complicado de ser atingido.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

Tudo o que sabemos sobre:

CâmbioDilma RousseffDólarFábio Alves

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: