O fim da euforia com a recuperação da zona do euro

O fim da euforia com a recuperação da zona do euro

Notícias negativas sobre a Alemanha alimentam a percepção de que o risco de desaceleração da atividade é crescente

Fábio Alves

12 de agosto de 2014 | 13h46

A lua entre as quatro torres de Madrid: esperança de dias melhores adiada (Foto: AP)

Independentemente de o consenso das estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre na zona do euro estar entre crescimento zero e leve contração, o resultado desse indicador, que será divulgado nesta quinta-feira, 13, deve consolidar o fim da euforia com a incipiente recuperação da atividade econômica nos 18 países que usam a moeda comum.

E o principal tema que preocupa os investidores em relação à zona do euro é a perda de fôlego da Alemanha, o motor econômico da região.

As notícias negativas sobre a economia alemã estão alimentando a percepção de que o risco de desaceleração da atividade é crescente na zona do euro.

Nesta terça-feira, a divulgação do índice ZEW de expectativas econômicas da Alemanha azedou mais ainda o humor dos investidores.

O ZEW caiu para 8,6 em agosto, de 27,1 em julho, ficando bem abaixo da previsão dos analistas, que esperavam um índice de 18,0 e também no menor nível desde dezembro de 2012. O índice de condições atuais medido pelo ZEW recuou para 44,3 em agosto, de 61,8 em julho.

Ao contrário de indicadores como o índice de sentimento das empresas do instituto Ifo ou o índice dos gerentes de compras (PMI), o ZEW não reflete as condições da economia real e sim o sentimento dos analistas, o que diminui um pouco o seu peso como termômetro do que está acontecendo ou o que está por vir na economia, uma vez que não raro as estimativas dos analistas acabam não se materializando.

Mas não dá para ignorar o resultado do ZEW, especialmente quando o índice registra queda em oito meses consecutivos.

Como o ZEW é o primeiro dado no mês a que os investidores têm acesso, ele pode estar refletindo toda a ansiedade atual com a tensão envolvendo a Rússia e a Ucrânia, em particular os efeitos econômicos das sanções ao governo russo e a retaliação dele à Europa. Apesar de apenas 3% das exportações alemãs terem a Rússia como destino, o gás natural russo alimenta a indústria de muitos países da zona do euro, principalmente a indústria alemã.

Pode-se até dizer que o ZEW reflete mais o sentimento de medo do que efeitos tangíveis na economia, mas o seu resultado negativo por oito meses consecutivos não pode ser ignorado. Isso porque o mercado financeiro – refletido na opinião dos analistas ouvidos para o índice ZEW – mostra-se cada vez mais pessimista em relação à zona do euro. Não à toa que o Stoxx 600, o principal índice acionário da Europa, acumula queda superior a 2% em agosto.

E se é verdade que o preço das ações antecipa ciclos econômicos ou de negócios, é razoável esperar uma recuperação anêmica para a zona do euro.

Uma contração, mesmo que leve, do PIB do segundo trimestre da zona do euro poderá levar a uma queda adicional dos ativos na Europa, em particular as ações negociadas em bolsas europeias e também perdas do euro frente ao dólar.

Em especial, os investidores vão prestar atenção ao desempenho do PIB da Alemanha no segundo trimestre. Muitos analistas esperam uma estagnação da economia alemã entre abril e junho deste ano.

E sem o seu principal motor, como a demanda e o consumo da zona do euro conseguirão reagir e afastar o fantasma da deflação?

Esse é, ao final das contas, a questão que o Banco Central Europeu (BCE) cada vez mais terá de lidar.

Como fazer reagir uma economia que não parece conseguir gerar organicamente estímulos suficientes para consumidores gastarem e empresas investirem?

A taxa de juro básica na zona do euro já é praticamente zero. Não há muito mais que cortar. A solução talvez seja até adotar um programa de afrouxamento quantitativo (QE, em inglês) aos moldes do que o Federal Reserve (Fed) implementou nos Estados Unidos. Talvez seja preciso mesmo adotar medidas para reduzir o nível de endividamento de famílias e empresas para abrir espaço para consumo e investimento.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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