Guinada à la Guido Mantega

Quanto Dilma poderá resistir à pressão do PT por uma guinada nos rumos da política econômica?

Fábio Alves

19 de outubro de 2015 | 12h41

 Levy foi um dos principais defensores da mudança da banda (André Dusek/Estadão)

PT e Lula pressionam por saída de Levy da Fazenda (André Dusek/Estadão)

O “Dia do Fico” de Joaquim Levy, proclamado, na realidade, pela presidente Dilma Rousseff a jornalistas em entrevista na Suécia, ontem, não deveria acalmar tanto assim o mercado.

Nem tanto por qualquer dúvida quanto ao desejo de Dilma em manter Levy no cargo, mas muito mais em razão de quanto a presidente poderá resistir à pressão do Partido dos Trabalhadores (PT) por uma guinada nos rumos da política econômica que o atual ministro da Fazenda adotou.

Foi Dilma quem, de fato, ditou a última reforma ministerial?

Não.

Para sobreviver e continuar no posto, ao menos como Rainha Elizabeth, que reina, mas não manda, Dilma aceitou o que lhe ditou o ex-presidente Lula na reforma ministerial, segundo interpretação de analistas ouvidos por esta coluna.

Não somente entregou Ministérios importantes para o PMDB, como também substituiu Aloizio Mercadante por Jaques Wagner na Casa Civil.

Quem no mercado acredita na surrada retórica de “gerentona” de Dilma, ao rebater o presidente do PT, Rui Falcão, quando disse que a “opinião do PT não é a do governo”?

Talvez o surto de comando demonstrado ontem na Suécia seja porque a presidente Dilma se sentiu aliviada por achar que diminuiu o risco de o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, acatar um pedido de impeachment.

Quer sejam pelas alegadas negociações de bastidores entre ela e Cunha, quer seja porque o peemedebista já não tenha tanta força assim depois de vir à tona evidências fortes de seu envolvimento no esquema de propinas surrupiadas da Petrobrás.

Passada a sensação de perigo iminente de uma batalha pelo impeachment, ao menos nos cálculos de Dilma e de seus auxiliares mais próximos, Dilma voltou a falar grosso.

Mas a visão de muitos analistas é de que ela já não tem mais controle do governo faz tempo. O baixíssimo índice de popularidade da presidente, a pressão da oposição e de muitos de seus “aliados” pelo impeachment e a crise aguda na economia retiraram de Dilma sua capacidade de governar.

É o ex-presidente Lula quem estaria agora no comando das mudanças no governo, para muitos analistas.

Assim, quando Rui Falcão dá uma entrevista tão contundente, como foi a que concedeu no domingo para o jornal Folha de S. Paulo, não dá para confiar que a permanência de Joaquim Levy é algo que se possa imaginar como até de médio prazo.

“Acho que ela (Dilma) vai determinar a liberação do crédito com responsabilidade”, disse Falcão à Folha. “Se Levy não quiser seguir a orientação da presidente, deve ser substituído.”

Nesse sentido, é razoável perguntar quando será a próxima crise envolvendo Levy, deflagrando boatos ruidosos no mercado sobre sua saída.

Talvez no dia em que Dilma ceder às pressões de Lula e do PT e abrir a torneira do crédito.

Pouco importa que o modelo de crescimento econômico do Brasil via estímulo ao consumo já esteja comprovadamente esgotado.

Essa é a panaceia para a crise que Lula parece crer cegamente.

Os rumores do mercado dão conta de que Lula quer trazer Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central, para o lugar de Joaquim Levy.

Quando esteve à frente do BC, Meirelles seguiu a cartilha da ortodoxia. Faria o mesmo se fosse nomeado o novo ministro da Fazenda?

Os céticos do mercado financeiro sobre a opção Meirelles – os quais bombardearam esta coluna com mensagens nos últimos dias – lembram que ele e a presidente Dilma estão muito longe de serem próximos. Na realidade, a expressão frequentemente utilizada para descrever Meirelles e Dilma foi: “Não se bicam”.

Quem leu as colunas recentes do ex-presidente do BC na Folha de S.Paulo aos domingos ficou com a impressão de que a opinião é de quem está se candidatando ao cargo, segundo comentou a esta coluna um grande investidor brasileiro.

No dia 11 de outubro, por exemplo, em coluna intitulada “Ajuste Completo”, Meirelles escreveu:

“A finalidade última de qualquer política econômica é promover o aumento consistente da renda e do emprego. Isso vale também para um ajuste fiscal. Mesmo que seja contracionista no curto prazo, no final do processo ele visa o crescimento. É importante, portanto, que o ajuste seja parte de um plano de desenvolvimento econômico.”

Na coluna acima, Meirelles critica a solução fiscal via aumento de impostos, “que reduz o crescimento” e, portanto, a arrecadação.

Mas não é isso que está defendendo Levy, quando vê na criação da CPMF a ponte para poder resolver o buraco das contas públicas?

A questão crucial não é se Joaquim Levy fica ou não no cargo, mas se Dilma resistirá ou não à mudança na política econômica como querem o PT e o ex-presidente Lula.

Se isso acontecer, por que não trazer de volta Guido Mantega?

Tendências: