Guinada do BC dos EUA à lá Alexandre Tombini?

Guinada do BC dos EUA à lá Alexandre Tombini?

Há uma diferença grande entre o que o Fed e o mercado projetam ser o curso dos juros em 2016

Fábio Alves

26 de janeiro de 2016 | 13h34

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O grande risco para os mercados da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), é a sinalização que o Federal Reserve (Fed) dará para a trajetória que já projetou para o aperto monetário em 2016, prevendo, por enquanto, quatro elevações dos juros americanos.

Já os investidores passaram a apostar mais recentemente, conforme as taxas dos contratos futuros, em apenas uma elevação dos juros nos Estados Unidos neste ano, depois da alta ocorrida em dezembro.

Ou seja, há uma diferença grande entre o que o Fed e o mercado projetam ser o curso dos juros em 2016.

Como na reunião do Fomc, que começa hoje e termina nesta quarta-feira, não há previsão de entrevista coletiva pela presidente do Fed, Janet Yellen, nem de divulgação de estimativas de indicadores macroeconômicos, recairá sobre o comunicado a ser divulgado após a decisão – cujo consenso esmagador é para a manutenção da taxa básica de juros – a sinalização do que será o aperto monetário ao longo deste ano.

Assim, pela precificação dos contratos futuros de juros, os investidores esperam um texto do comunicado muito “dovish” (menos inclinado a um aperto monetário mais significativo), com o Fed destacando os riscos para a recuperação econômica dos Estados Unidos provenientes da queda do preço do petróleo, da desaceleração da economia chinesa e da perda de fôlego da inflação americana.

A caracterização no comunicado do Fomc do balanço de riscos levando em conta esses fatores pode levar os investidores a reforçar as apostas para um ciclo de aperto monetário bem mais gradual do que o inicialmente previsto pelo Fed.

Por outro lado, há quem acredite que ainda é muito cedo no ano para o Fed se comprometer com uma descrição mais detalhada do cenário econômico dos Estados Unidos e assim consolidar com antecedência a contratação do aperto monetário em 2016.

Ao contrário do Banco Central brasileiro, o Fed tende a ser mais cauteloso na sua comunicação. Guinadas mais abruptas na comunicação são raras no Fed.

A autoridade monetária americana provavelmente desejará manter as opções em aberto para elevar os juros básicos se os indicadores de atividade e de inflação surpreenderem positivamente ao longo deste primeiro trimestre, isto é, o famoso “data dependent”.

Embora até amanhã o Fed não tenha em mãos os dados do PIB do quarto trimestre de 2015, cuja expectativa é de um desempenho mais fraco com base em indicadores como vendas no varejo, os mais recentes números do mercado de trabalho ainda dão sustentação para a recuperação da economia americana.

Dito isso, há um risco não desprezível de o Fed não ser tão “dovish” quanto o mercado financeiro vem precificando nas apostas de uma única alta dos juros básicos neste ano.

Por outro lado, se for para alterar a visão de que o curso do aperto monetário em 2016 não contemplará quatro elevações dos juros – como previstos nos chamados “dots” (gráficos de projeções) -, o Fed provavelmente começará a incluir uma linguagem mais “dovish” na sua comunicação na reunião do Fomc desta semana.

Assim, a dúvida não é se a linguagem do comunicado será “dovish”, mas o quão “dovish”.

Como é grande a diferença entre o que aposta o mercado (apenas uma alta de juros) e o próprio Fed (quatro elevações), uma frustração dos investidores sobre o que disser o Fomc poderá causar uma reprecificação significativa da curva de juros e de outros ativos, incluindo a cotação do dólar frente às principais moedas internacionais, como o real.

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