Incerteza eleitoral abala investimentos, emprego e consumo

Incerteza eleitoral abala investimentos, emprego e consumo

Cenário político turvo após morte de Eduardo Campos posterga planos de investimento de empresas e faz consumidor reduzir gastos por medo de perder o emprego

Fábio Alves

20 de agosto de 2014 | 11h58

Dilma, Marina e Aécio: novo cenário embolado após morte de Eduardo Campos (Fotos/Estadão)

A incerteza eleitoral e, por tabela, as dúvidas sobre como será a política econômica brasileira em 2015 estão afetando a disposição dos empresários tirarem os projetos de investimentos da gaveta, com provável efeito negativo sobre as contratações de empregados e também o consumo de quem teme não encontrar trabalho no futuro próximo.

O quanto essa incerteza eleitoral pode afetar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano?

Isso é difícil mensurar, mas o sentimento dos analistas é de que a falta de horizonte sobre como a economia brasileira será conduzida em 2015 deve contribuir para reduzir mais ainda o nível de investimento neste ano, com consequência para o PIB.

A projeção do crescimento da economia brasileira foi reduzida pela décima segunda semana consecutiva na pesquisa semanal Focus, do Banco Central, divulgada na segunda-feira. Os analistas cortaram a estimativa para o PIB brasileiro em 2014 de 0,81% para 0,79%. Para 2015, a projeção é de um crescimento de 1,20%.

Um grande investidor brasileiro diz que a incerteza política dificulta ter uma ideia mais clara acerca dos componentes de um ajuste necessário em 2015, em particular da política fiscal.

“Impostos subirão? Subsídios serão reduzidos? Gastos e transferências serão cortados impactando o poder de compra? Qual o custo do crédito? A definição desses componentes pode afetar significativamente alguns setores em detrimento de outros”, afirma o economista.
“Então, o custo de oportunidade de esperar por uma maior clareza é baixo nesse momento.”

Na estimativa da fonte acima, os investimentos devem cair cerca de 4,5% em 2014. Isso reduz o PIB deste ano em 0,8 ponto porcentual.

No primeiro trimestre deste ano, segundo o IBGE, houve uma queda de 2,1% na formação bruta de capital fixo (FBCF) ante o quarto trimestre de 2013, o maior recuo desde os três primeiros meses de 2012. Em 2013 como um todo, a taxa de FBCF registrou expansão de 5,2%.

Já um experiente economista paulista lembra que há medidas internacionais (para Estados Unidos e Europa, por exemplo), como o índice de incerteza política, que têm forte vinculação com o desempenho do investimento fixo. Quanto maior o grau de incerteza, menor a disposição de investimento e vice-versa. “E aqui não seria diferente”, diz ele.

Poderiam as empresas e indústrias estar engavetando projetos de investimentos por não saberem como será a política econômica em 2015 uma vez que não se sabe quem pode vencer as eleições?

“Sim. É o que se espera de um gestor nesses momentos, especialmente se os valores envolvidos forem relevantes”, responde o economista paulista. Segundo ele, o cálculo de viabilidade de um projeto depende da taxa esperada de crescimento do negócio, da taxa de juros futura, da taxa de câmbio (em vários segmentos), da carga tributária, entre tantos outros fatores.

“Como o grau de incerteza sobre o comportamento dessas variáveis é bastante grande e a variação entre um cenário e outro (a depender do eleito) é significativa, é temerário apostar ‘seco’ num único cenário”, explica a fonte acima. “Assim, ‘senta-se’ em cima do projeto até o horizonte ficar mais visível.”

E como os efeitos dessas incertezas eleitorais podem também afetar os investimentos em 2015?

Para o grande investidor ouvido mais acima, no dia seguinte da eleição, quem ganhar prometerá o paraíso na terra.

“Nesse momento, será crucial a reposta de investidores à seguinte pergunta: você está disposto a dar o benefício da dúvida de que as políticas anunciadas serão bem sucedidas em entregar crescimento?”, indaga o investidor. “Se a resposta for positiva, o ajuste vai se dar em um ambiente favorável à retomada e o crescimento de 2015 poderá ser maior; se não, o vento contra será enorme e o crescimento, menor.”

Na opinião do economista paulista ouvido anteriormente, o atraso das decisões de investimento neste ano ainda vai repercutir no ano que vem.

“Dependendo do tipo de projeto, o primeiro ‘tijolo’ – físico mesmo ou figurado – só vai ser assentado no final de 2015”, diz. “Se as condições macroeconômicas forem melhoradas, o impacto mais relevante será sentido mesmo em 2016.”

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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