Já é o momento de investir na Bovespa?

Já é o momento de investir na Bovespa?

Bolsa não esgotou seu potencial de alta, mas a questão que fica é: quando a valorização da Bovespa entrará num ciclo sustentado?

Fábio Alves

23 Abril 2015 | 16h09

bovespa-sergio-castro

Depois de superar os 55 mil pontos no início da tarde desta quinta-feira, acumulando alta acima de 7,5% apenas em abril, é possível apostar que a Bovespa virou a esquina e pode engrenar num ciclo de valorização após a divulgação do balanço auditado da Petrobrás?

A alta recente da bolsa brasileira tomou fôlego após a última reunião do Fomc, o comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed), no dia 18 de março, quando o mercado adiou as apostas para o início da elevação da taxa básica de juros americanos de junho para setembro. Essa aposta deflagrou, por tabela, uma depreciação do dólar frente ao real, o que, por sua vez, alimentou ainda mais os ganhos da Bolsa em moeda estrangeira.

É hora de comprar o Ibovespa?

Não ainda, segundo o estrategista-chefe de ações para mercados emergentes do banco UBS, Geoff Dennis.

“A Bovespa não está barata e o real se apreciou de forma exagerada no curto prazo frente ao dólar”, disse Dennis em conversa com esta coluna por telefone de Nova York.

Desde a reunião do Fed em março, a Bovespa já subiu 17% em dólar, levado em conta o índice MSCI. Dennis considera que até o fim deste ano há, de fato, algum potencial de alta em dólar da Bolsa, mas a volatilidade até lá será grande.

Para ele, indicadores de atividade econômica seguirão muito fracos nos próximos dois ou três trimestres e os lucros das empresas brasileiras ainda não atingiram seu menor nível no ciclo atual.

“Ainda veremos mais revisões para baixo nos lucros (‘earnings’) das empresas brasileiras”, disse o estrategista do UBS, que mantém a Bovespa com recomendação neutra no âmbito das bolsas emergentes.

Segundo ele, o consenso das estimativas dos analistas para os lucros das empresas brasileiras foi de uma queda de 14,5% em dólar em 2014 e a projeção para 2015 é de um recuo de 1%, mas Dennis acredita que o consenso dessa expectativa para este ano ainda será reajustado fortemente para baixo, numa magnitude de queda entre 10% e 15% em dólar dos lucros das empresas negociadas na Bovespa.

Não obstante esse cenário, o investidor estrangeiro viu uma oportunidade de compra das ações brasileiras após a última reunião do Fed, quando o dólar começou a ceder do pico ao redor de R$ 3,30. Também ajudou a expectativa de divulgação do balanço auditado da Petrobras, o que tirou uma grande incerteza sobre não somente o mercado acionário brasileiro como também sobre outros fatores importantes, como o risco de rebaixamento do rating soberano do País.

Não é à toa que, até o dia 20 de abril, o saldo de capital externo na Bolsa ficou positivo em R$ 5,895 bilhões. No acumulado de 2015, o superávit de recursos estrangeiros totaliza R$ 15,760 bilhões na Bovespa.

“Eu preferiria comprar as ações brasileiras num nível mais baixo do Ibovespa e também num patamar mais depreciado do real”, explicou o estrategista do UBS, ressaltando que não está “bearish” (pessimista) com a Bovespa no sentido de rebaixar sua recomendação para “underweight”.

“Mas o pior do noticiário econômico e de resultados de lucros das empresas ainda não ficou para trás”, acrescentou.

Já um executivo de renda variável de um dos maiores bancos brasileiros, que conversou em “off the record” com esta coluna, ponderou que é preciso levar em conta na análise das perspectivas da Bovespa a mudança das expectativas dos investidores, empresários e analistas com o novo rumo da política econômica brasileira adotado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

“As medidas que o Levy está adotando vão mudar as expectativas dos investidores? A economia brasileira voltará a crescer a partir de 2016? A taxa Selic pode subir mais um pouco, mas voltará a cair no ano que vem?”, indagou a fonte acima. “A Bovespa vai antecipar tudo isso e também o que vai acontecer com os lucros das empresas no ano que vem.”

O executivo ressaltou que a grande contribuição para a subida de patamar da Bovespa de 50 mil para 55 mil pontos foi a valorização das ações da Petrobras, com base apenas na expectativa da divulgação do balanço auditado da estatal, ou seja, o motor de alta da Bolsa brasileira, além do fator externo das apostas da elevação de juros pelo Fed, foi a confiança do investidor. A ação ordinária da Petrobras passou de R$ 8,04 no final de janeiro para R$ 13,31 no fechamento de ontem, numa alta de 65%.

Para o executivo acima, se o horizonte da economia brasileira para 2016 melhorar, e por tabela as projeções para os lucros das empresas, há um potencial de alta da Bovespa de, pelo menos, 10% em termos nominais nos próximos doze meses.

“O problema é que esse cenário melhor para a economia brasileira precisa se consolidar”, explicou a fonte. “Quando isso se consolidar, a Bolsa vai antecipar a esse cenário e subir.”

Para isso, o ajuste fiscal precisa ser aprovado no Congresso, as expectativas de inflação começarem a ceder com mais força e a confiança de empresários e consumidores voltar a se recuperar, o que puxará a demanda e o investimento.

Nesse ambiente, as ações de empresas com peso importante no Ibovespa, como os bancos, podem começar a ter um desempenho melhor do que o registrado até agora em 2015. Na média, as ações dos bancos brasileiros estão sendo negociadas ao redor de 2,5 vezes o valor patrimonial, quando já bateram no passado um patamar próximo de 3 vezes.

Ou seja, a Bolsa não esgotou seu potencial de alta. A questão é: quando a valorização da Bovespa entrará num ciclo sustentado?

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