Lava Jato e a guinada no cenário da economia

Lava Jato e a guinada no cenário da economia

Fica difícil pensar em avanço da política fiscal se o governo Dilma voltar a se enfraquecer politicamente com o desenrolar das investigações da Lava Jato

Fábio Alves

23 Fevereiro 2016 | 10h49

Adormecido após o recesso no Congresso e no Judiciário, o risco político voltará a ser um dos principais – senão o mais importante – catalisadores para os preços dos ativos brasileiros nos próximos meses. Poderá ser o ponto de inflexão da crise econômica.

E isso em razão da Operação Acarajé, a nova fase da Lava Jato, cujo maior alvo foi João Santana, o marqueteiro das campanhas eleitorais de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006, e da presidente Dilma Roussef, em 2010 e 2014.

Em boa parte de 2015, ruídos vindos da política foram preponderantes para movimentar os preços das ações e da cotação do dólar frente ao real, além da curva de juros.

Assim, 2016 acaba de começar com a Operação Acarajé e será mais apimentado quando crescerem os ruídos da campanha eleitoral para escolher os prefeitos brasileiros em outubro.

A partir de agora, ficarão provavelmente em segundo plano as sinalizações de política monetária pelo Banco Central e até novos anúncios de medidas fiscais.

Foto: André Dusek/Estadão

Com aprofundamento das investigações da Lava Jato, mercado observa se o processo de impeachment de Dilma ganhará força. Foto: André Dusek/Estadão

Isso porque fica difícil pensar em avanço da política fiscal se o governo Dilma voltar a se enfraquecer politicamente com o desenrolar das investigações da Lava Jato, resultando em denúncias em torno de João Santana e das acusações de pagamento de seus serviços nas campanhas eleitorais com recursos provenientes de propina.

Se o fiscal voltar a emperrar no Congresso, deixando o BC com a tarefa de apenas enxugar gelo, os investidores e empresários vão ficar mais sensíveis à gangorra do noticiário político.

Vão tentar medir os seguintes riscos:

A partir da nova fase da Lava Jato, quão maior será o risco de o processo de cassação da chapa Dilma Rousseff e Michel Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que investiga as contas da campanha petista de 2014?

Ganhará mais fôlego o processo de impeachment de Dilma que se encontra no Congresso, se a pressão das ruas aumentar devido ao noticiário envolvendo Santana e o financiamento das campanhas petistas?

Ontem, a Bovespa 4,07%, fechando aos 43.234 pontos, impulsionada em parte pelo noticiário político e as expectativas de que as denúncias em torno da Operação Acarajé voltem a acordar as ruas, levando a um impeachment de Dilma. Já o dólar caiu quase 2% para R$ 3,9417.

Para os investidores e empresários, o risco político passa a ser o maior potencial para um eventual ponto de virada ou inflexão da profunda recessão em que se encontra o Brasil.

Os índices de confiança de consumidores e de empresários estão em patamares bastante deprimidos. Uma recuperação da atividade depende da melhora da confiança.

Não é possível afirmar com certeza que os índices de confiança vão melhorar apenas com o crescimento do risco de o mandato da presidente Dilma terminar antes de 2018, seja via decisão do TSE ou do impeachment.

Tudo dependerá de, se um desses dois cenários se materializar, quem ou que concerto político sucederá Dilma, pois a incerteza e a disputa política cega poderão afundar o País mais ainda no caos.

Todavia, pelo comportamento do mercado financeiro é possível imaginar que, quanto maior a possibilidade de saída de Dilma e, por tabela, de troca nos rumos da condução da economia brasileira, mais provável será a retomada da confiança dos empresários e investidores.

O raciocínio seria que pior do está a economia brasileira não pode ficar. Além de estimativas de retração de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015, os analistas já preveem queda de 3,4% neste ano. Muitos economistas já esperam a taxa de desemprego bater dois dígitos neste ano e a inflação deve superar, novamente, o teto da meta fixada pelo BC, de 6,5%.

O único senão para essa postura dos investidores é que, como se viu em 2015, o processo de tirar o mandato de Dilma por qualquer via não será rápido e sem obstáculos, afinal não há nada que possa provar até o momento uma conduta desabonadora da presidente.

Assim, o noticiário político poderá abrir espaços para correções fortes após quaisquer arroubos de otimismo de quem quer ver uma mudança no comando do País.