Lula sobe, Joaquim Levy desce

Lula sobe, Joaquim Levy desce

Em um desfecho positivo para Dilma, com mais um revés da oposição no processo de impeachment pelas mãos de Cunha, Lula vai cobrar a sua fatura; preço poderá passar pela cabeça do ministro da Fazenda

Fábio Alves

16 de outubro de 2015 | 11h05

Desde que a imprensa começou a publicar notícias extra oficiais sobre um acordo entre Dilma Rousseff e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, com o objetivo de evitar o impeachment dela e a cassação do mandato dele, muitos interlocutores desta coluna começaram a atribuir uma menor probabilidade de que um processo de impedimento da presidente avance, ao menos até o fim deste ano.

Se Dilma e o ex-presidente Lula conseguirem, de fato, entregar o prometido ao peemedebista – que os deputados do PT não somente votem contra a remoção de Cunha como presidente da Câmara pela Comissão de Ética e, depois, pelo plenário da Casa -, passou a ficar mais provável que, na melhor das hipóteses, um pedido de impeachment de Dilma fique parado nas mãos de Cunha por muito mais tempo do que a oposição queria.

E tempo é algo que favorece não somente a Cunha para tentar impedir ou retardar a perda do seu cargo como presidente da Câmara e de seu próprio mandato, como também a Dilma para reverter a maré crescente pelo seu impeachment.

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(Foto: André Dusek/Estadão)

Não é à toa que os partidos de oposição tentam apressar o avanço de um pedido de impeachment na Câmara, que depende agora da decisão monocrática de Cunha, mesmo que sem bases legais tão sólidas como os defensores do impedimento gostariam.

Num cenário em que Dilma ganha tempo e sobrevida, com a rejeição ou, ao menos, o adiamento ao máximo de um processo de impeachment, quem deve ficar numa situação difícil de permanência no cargo é o ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Isso porque, como a reforma ministerial já demonstrou, quando Jaques Wagner substituiu Aloizio Mercadante como chefe da Casa Civil, o ex-presidente Lula deve ganhar mais poder e influência nas decisões do governo se o desfecho for bem sucedido para Dilma nas negociações de últimas hora entre a presidente e o seu desafeto que comanda a Câmara.

Se há alguém que poderá convencer a até agora rebelde bancada petista para votar a favor de Cunha na Comissão de Ética e no Plenário da Câmara é Lula e não Dilma.

É bom lembrar que 34 dos 62 deputados petistas assinaram a petição encabeçada pelo PSOL para abertura de processo contra Cunha na Comissão de Ética da Câmara.

Se Cunha conseguir a sua parte da alegada barganha com a presidente pela sobrevivência de ambos, via votação de parecer contrário na Comissão de Ética à sua remoção como presidente da Casa, será resultado do empenho de Lula junto ao PT.

Num desfecho positivo para Dilma, com mais um revés da oposição no processo de impeachment pelas mãos de Cunha, Lula vai cobrar a sua fatura. E o preço poderá passar pela cabeça de Joaquim Levy.

Nesse cenário, fica difícil ver Levy ainda no comando da Fazenda na virada do ano ou na primeira metade de 2016, dizem analistas ouvidos por esta coluna. Isso em razão da postura cada vez mais contrária – por parte de Lula e do PT – ao ajuste fiscal que Levy tentou implementar.

Basta lembrar recentemente documento elaborado pela Fundação Perseu Abramo, braço acadêmico do PT, em parceria com outras seis entidades, o qual atacou a política econômica adotada por Dilma no seu segundo mandato, pedindo mudanças imediatas.

Entre as medidas defendidas no documento estão o fim da política de elevação dos juros, a taxação das grandes fortunas, lucros, dividendos e remessas ao exterior, o fortalecimento do mercado interno e a preservação de gastos sociais, entre outros pontos considerados radicais por economistas ouvidos por esta coluna.

“A saída de Levy seria desastrosa não apenas pelo que ele poderia fazer em termos de ajuste fiscal”, disse um renomado economista do Rio de Janeiro. “Mas principalmente porque Levy serve hoje como anteparo a coisas malucas defendidas por alas do PT, como as ideias que constam no documento da Fundação Perseu Abramo.”

Para a fonte acima, o mercado reagiria negativamente à saída de Levy. Nem mesmo os rumores de que o seu substituto poderia ser Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central no governo Lula, aliviariam o estresse do mercado.

Isso porque muitos duvidam que Meirelles aceitaria ser ministro da Fazenda sem ter a carta branca que teve como presidente do BC. Ele e Dilma não são próximos, para dizer o mínimo, segundo relatos de interlocutores desta coluna. E mesmo que a vaidade o levasse a aceitar o lugar de Levy, Meirelles pouco conseguiria realizar num governo tão fraco politicamente como o de Dilma.

De qualquer maneira, se o cenário de afastamento do risco de impeachment se consolidar, com a materialização do propalado acordo entre Dilma e Eduardo Cunha, o próximo foco de tensão dos investidores será sobre a permanência ou não de Levy no Cargo.