Mailson e Sarney… Ops, Levy e Dilma

Viagem de Levy a Londres voltou a alimentar especulações sobre a saída do ministro da Fazenda do cargo

Fábio Alves

28 de outubro de 2015 | 13h31

No meio da barafunda que tomou conta do mercado em relação à nova meta fiscal de 2015, causou estranheza em interlocutores desta coluna a viagem do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, para Londres.

Novamente, especulações correram soltas nas mesas de operação, inclusive um rumor que dava conta do retorno de Antonio Palocci para ocupar sua antiga cadeira no Ministério da Fazenda.

Como crer em tal possibilidade num momento em que o País está engolido por denúncias de corrupção das operações Lava Jato e Zelotes?

Politicamente, seria muito difícil a presidente Dilma Rousseff justificar a volta de Palocci.

Mas e a saída de Levy?

De um lado, uma corrente de interlocutores desta coluna crê piamente que Levy fica somente até o fim deste ano. Que sua saída já estaria acertada. Que o ministro “encheu o saco” de tantas derrotas e humilhações. Que o PT e o ex-presidente Lula finalmente vão conseguir forçar Dilma a dar uma guinada à esquerda na condução da política econômica, demitindo Levy.

Todavia, um ilustre economista brasileiro, testemunha ocular de tantos presidentes, defende a tese de que Levy vai ficando no cargo.

Isso é resultado de uma histórica “relação estável”, mesmo que caótica, entre ministros da Fazenda e presidentes da República.

Um exemplo clássico, segundo o economista acima, seria a dupla José Sarney e Mailson da Nóbrega: um presidente politicamente enfraquecido e um ministro tentando administrar os efeitos da aguda crise econômica dos anos 80, marcados pela hiperinflação.

Ele conta que Sarney não gostava de Mailson. O ministro do “coração” do autor de “Marimbondos de Fogo” teria sido Dilson Funaro, criador do frustrado “Plano Cruzado”.

Mailson prometeu uma política econômica “feijão com arroz” e introduziu o “Plano Verão”, que não tardou a ruir, abrindo as torneiras para a inflação subir rapidamente.

Sarney não demitiu Mailson ao perceber que a saída de mais um ministro da Fazenda poderia gerar o caos total, argumenta a fonte desta coluna. Já Mailson não pegou o chapéu e foi embora por um sentimento de responsabilidade pública, pois sua saída provavelmente mergulharia o País em mais um surto hiperinflacionário ou pior.

Outro exemplo da relação tão delicada entre presidentes e seus ministros da Fazenda, segundo o ilustre economista, foi a dupla Fernando Collor e Marcílio Marques Moreira.

Marcílio não estava próximo ao coração de Collor. Esse lugar sempre fora da Zélia Cardoso de Mello, mas o sequestro da poupança acabou em outra crise econômica.

É essa então a chave para se fazer a aposta sobre uma eventual saída de Levy do cargo.

Levy não é o ministro preferido da presidente, que o nomeou para tentar dar um choque de credibilidade no seu segundo mandato.

Guido Mantega ou mesmo Arno Augustin, ex-secretário do Tesouro, estariam mais próximos ideologicamente do que pensa Dilma em relação à economia.

A presidente, assim como José Sarney, não tem mais qualquer capital político. Dificilmente conseguirá aprovar medidas necessárias de ajuste fiscal ou reformas estruturais.

Muitos investidores e analistas acreditam que Dilma deve calcular que tirar Levy do cargo neste momento seria mergulhar a economia brasileira numa confusão ainda mais profunda.

Por outro lado, Levy deve sentir que sair agora agravaria uma situação já tão difícil, talvez até acelerando a perda do grau de investimento por uma segunda agência de classificação de risco.

Daí, essa estabilidade de Levy no cargo até agora, resultado de uma situação de equilíbrio tão frágil.

Mesmo depois de tantas derrotas impostas por Dilma nos quase dez meses deste segundo mandato, Levy segue no cargo, apesar de ter dado alguns chiliques públicos, demonstrando sua frustração com decisões da presidente contrárias ao que gostaria.

Paralelamente, apesar de toda a pressão do PT, dos movimentos sociais e do ex-presidente Lula, Dilma mantém Levy como ministro.

Em defesa dessa tese de “estabilidade-mesmo-que-no-caos”, vale a pena deixar no ar a seguinte observação: mesmo sem amor perdido entre eles, Mailson ficou até o fim do governo Sarney, assim como Marcílio terminou ministro do finado governo Collor.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast