Sem Marina na disputa, dólar pode ir a R$ 2,30

Sem Marina na disputa, dólar pode ir a R$ 2,30

Confirmação do nome da ex-senadora na cabeça de chapa do PSB garantiria segundo turno e não causaria mudanças cambiais, dizem analistas

Fábio Alves

15 de agosto de 2014 | 15h11

Mercado financeiro aguarda com expectativa a definição do nome de Marina Silva no lugar de Eduardo Campos pela chapa do PSB (Evelson de Freiras/Estadão)

O maior risco doméstico para o câmbio no curtíssimo prazo é a definição de quem vai substituir Eduardo Campos na cabeça de chapa do PSB à eleição presidencial.

Como a nomeação da candidata a vice na coalizão liderada pelo PSB, Marina Silva, não é automática e parece agora não tão simples como muitos investidores haviam pensado logo que se confirmou a trágica morte do ex-governador de Pernambuco, uma surpresa na decisão do PSB quanto ao nome do novo candidato poderá fazer disparar o dólar frente ao real.

“A nomeação da Marina parece mais complicada do que havíamos previsto inicialmente”, disse a esta coluna um diretor de uma gestora de recursos com sede na Avenida Faria Lima, em São Paulo. “O grau de incerteza que há, ao menos por enquanto, em relação à candidatura dela está limitando a tomada de posição mais agressiva no dólar.”

O presidente do PSB, Roberto Amaral, convocou para quarta-feira, 20, uma reunião da executiva nacional do partido, para decidir se a legenda terá candidato a presidente da República e quem será o substituto de Eduardo Campos. O nome mais forte é o da ex-ministra Marina Silva. “A tendência é o partido ter candidato”, disse Amaral aos jornalistas João Domingos e Daiene Cardoso, do grupo Estado. A reunião será realizada em Brasília.

Há quem aposte que, se Marina não for nomeada a candidata do PSB à Presidência da República, o dólar certamente superará o patamar de R$ 2,30.

Interlocutores dizem que, por enquanto, já está no preço do dólar um cenário em que a ex-ministra do Meio Ambiente substituirá Eduardo Campos. Daí, se isso for confirmado, não haverá grande oscilação no câmbio.

Mas se o PSB decidir pelo contrário, não endossando o nome de Marina na cabeça de chapa, então o mercado financeiro começará a precificar com força uma maior probabilidade de a eleição presidencial ser decidida ainda no primeiro turno, com eventual vitória de Dilma Rousseff.

Isso porque os analistas e investidores consideram Marina Silva um nome mais forte do que Eduardo Campos em atrair votos que iriam para Dilma ou para Aécio Neves (PSDB) ou até mesmo para nulos e brancos.

Com Marina Silva na disputa, os investidores avaliam que um segundo turno é dado como certo. Se esse for o desfecho, isto é, Marina Silva como candidata à Presidência, então o chamado cenário binário para o dólar, juros e outros ativos financeiros terá de ser modificado.

Até a morte de Eduardo Campos, várias consultorias e bancos de investimentos vinham traçando para seus clientes no Brasil e no exterior um cenário binário para os ativos brasileiros em 2015.

Se as pesquisas de intenção de voto mostrarem uma possibilidade maior de vitória de um candidato de oposição, em particular Aécio Neves, o real teria espaço para valorização frente ao dólar, pois o tucano e seus assessores econômicos gerariam um choque de credibilidade, o que contribuiria para atrair grande fluxo de capital estrangeiro.

Caso as pesquisas mostrem um cenário eventual de reeleição da presidente Dilma Rousseff, a pressão de desvalorização da moeda brasileira seria maior. Nesse último caso, há quem aposte até um dólar superando R$ 3 no ano que vem.

Isso porque, nos cálculos de investidores e analistas, Dilma não implementaria um ajuste econômico, especialmente nos gastos públicos, na magnitude necessária para reconquistar a confiança dos investidores tampouco para fazer convergir a inflação para o centro da meta, de 4,5%, ou para elevar a taxa de investimento na economia brasileira.

Com Marina Silva na disputa, os analistas terão de desfazer o cenário binário, incluindo uma via intermediária. Isso porque os investidores consideram que Marina adotaria uma política econômica entre o que fariam Dilma e Aécio, caso eleitos.

Essa percepção está longe de consolidada na mente de analistas e investidores. É baseada apenas nas palavras do economista Eduardo Gianetti da Fonseca, que vem assessorando Marina em assuntos econômicos.

Gianetti da Fonseca afirmou ontem, durante palestra no 24º Congresso da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), que há “uma forte convergência” entre o PSDB e o PSB para as políticas econômicas necessárias caso derrotem o atual governo nas eleições. “A oposição vai corrigir os equívocos do atual governo, com a volta do tripé macroeconômico, com um movimento inevitável de correção e ajustes aos desequilíbrios”,
disse.

Obviamente que Marina terá de, se confirmada oficialmente como a candidata do PSB, corroborar as palavras de Gianetti da Fonseca.

De qualquer forma, com Marina na disputa, o cenário binário para a economia brasileira de Dilma versus Aécio terá de ser alterado, ou melhor, deve-se descartar as pontas negativas (Dilma reeleita com ajuste muito moderado na economia) ou positiva (Aécio vitorioso fazendo um ajuste maior nas políticas fiscal e monetária) em termos de preços de ativos. Marina já provou que tem poder de voto, ao atrair 20 milhões de eleitores no pleito de 2010.

Para o dólar, há então dois riscos domésticos associados à eleição. O de curtíssimo prazo, com a nomeação ou não de Marina como candidata do PSB. E de médio prazo, com o desfecho das eleições incluindo um cenário intermediário para o que acontecerá com a economia brasileira em 2015.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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