Mercado aguarda ‘mudança pontual’ de ministros e ajuste fiscal

Mercado aguarda ‘mudança pontual’ de ministros e ajuste fiscal

Reforma ministerial ampla neste momento poderá complicar o objetivo maior do governo: a aprovação das medidas fiscais, cuja votação no Congresso deve ocorrer em abril

Fábio Alves

20 de março de 2015 | 13h20

Dilma: reforma ampla agora seria admissão de erro na escolha (Foto: Ed Ferreira/Estadão)

Dilma: reforma ampla agora seria admissão de erro na escolha (Foto: Ed Ferreira/Estadão)

 

O tema reforma ministerial seguirá no radar do mercado financeiro no curto prazo, mesmo depois da declaração da presidente Dilma Rousseff de que não há mudanças de ministros no horizonte, o que levou o dólar a bater R$ 3,30 ontem.

Apesar da pressão, a presidente agiu corretamente ao não fazer um anúncio imediato de reforma ministerial apenas para agradar a investidores e também a partidos sedentos por mais espaço no governo.

O estrago de uma nova composição ineficiente de seus auxiliares mais diretos poderá ser maior do que simplesmente deixar o seu governo como está enquanto a crise política estiver aguda.

Isso porque uma reforma ministerial neste momento, além de ser uma admissão de erro na escolha da presidente Dilma tão cedo no seu segundo mandato, poderá complicar o objetivo maior do governo: a aprovação das medidas de ajuste fiscal, cuja votação no Congresso deve ocorrer em abril.

Uma reforma ministerial errada poderá ter como uma das consequências eventuais derrotas nas Medidas Provisórias do ajuste fiscal, entre elas as que restringiram o acesso aos benefícios previdenciários e trabalhistas e também a que reduziu a desoneração na folha de pagamento das empresas.

Daí, a pressão de investidores por uma reforma ministerial precisa levar em conta a agenda de curto prazo no Congresso, em particular a relacionada ao ajuste fiscal.

Sem um maior cuidado na escolha de novos ministros, com uma partilha mais estratégica de cargos entre os partidos da base aliada, a aprovação do ajuste fiscal no Congresso poderá exigir concessões maiores do que o governo gostaria de fazer.

Diante do ambiente político de maior estresse, é mais provável que a presidente Dilma faça trocas pontuais de ministros do que propriamente uma reforma ministerial mais ampla.

A pergunta mais premente de investidores e analistas é quem vai substituir Cid Gomes (Pros-CE) no Ministério da Educação.

Seguirá o Pros com a pasta?

Há quem diga que o partido não tem o mesmo peso que outros da base aliada, com apenas 12 representantes na Câmara dos Deputados e nenhum senador.

Mas, diante da falta de lealdade da sua base aliada na Câmara, pode a presidente Dilma abrir mão de 12 votos em votações importantes?

Outro tema importante é quanto aos Ministérios ligados à coordenação política, em especial a Casa Civil (Aloizio Mercadante) e o de Relações Institucionais (Pepe Vargas).

Na avaliação de analistas que conversaram hoje com esta coluna, apesar de erros recentes, os quais resultaram em derrotas para o governo, Mercadante está menos vulnerável a cair do que Vargas.

Primeiro, porque a presidente tem uma ligação mais próxima do chefe da Casa Civil do que o de Relações Institucionais.

Segundo, porque, ao manter Mercadante, a presidente ainda envia a mensagem de que o seu Ministério tem mais a sua cara do que a do ex-presidente Lula.

Terceiro, porque, com todas as suas idiossincrasias, Mercadante parece não ter se inviabilizado como ministro ao contrário de Vargas, especialmente na relação com o PMDB, o qual vem colocando pressão sobre Dilma para conquistar mais espaço no governo – e não apenas de cargos, mas de participação nas decisões.

Basta lembrar a declaração que Eduardo Cunha (PMDB-RJ) deu logo após a sua eleição para presidente da Câmara, de que Pepe Vargas havia se inviabilizado como interlocutor com o Congresso. Não houve ainda uma declaração tão forte contra Mercadante partindo do PMDB.

Mesmo que Mercadante consiga se manter no cargo, é possível que a sua influência seja bem mais restrita do que nos primeiros meses do segundo mandato da presidente. Até porque o PMDB, diante da queda forte na aprovação do governo Dilma nas últimas pesquisas de opinião, já demonstra uma força muito maior.

Seja qual for a nova composição ministerial – se uma reforma mais ampla ou, o que é mais provável, apenas algumas trocas pontuais -, a presidente Dilma terá em mente a votação das MPs do ajuste fiscal na divisão de cargos do primeiro escalão.

* Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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