Emprego enfrenta ressaca da Copa no segundo semestre

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Emprego enfrenta ressaca da Copa no segundo semestre

Números do mercado de trabalho decepcionam e podem abalar ainda mais a confiança dos empresários nos próximos meses

Fábio Alves

29 de julho de 2014 | 12h50

Ressaca da Copa: fim das obras de estádios reduz emprego na construção (Foto:Wherter Santana/Estadão)

O mercado de trabalho no Brasil deverá enfrentar neste segundo semestre um dos períodos mais fracos desde o pico da crise financeira internacional em 2008 e 2009, segundo analistas. A criação de vagas de empregos deve perder fôlego e os ganhos salariais devem ser menores do que nos últimos anos.

Investidores e analistas já vinham esperando uma fraqueza no mercado de trabalho e uma desaceleração no número de criação de vagas ao longo de 2014, mas foram surpreendidos com o resultado desastroso do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de junho.

O saldo líquido de empregos formais gerados em junho foi de 25.363 vagas, o pior para o mês desde 1998.

O economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale, estima um saldo líquido de geração de 294 mil vagas para todo o ano de 2014. Só que, no acumulado em 12 meses até junho, essa criação de empregos formais pelo Caged atingiu 566 mil vagas.

Passados os efeitos do período pré-Copa do Mundo, quando houve um aumento no emprego em setores como hotelaria e construção civil, o economista-chefe da MB Associados espera uma desaceleração forte do mercado de trabalho.

“A reversão desse cenário antes da Copa não deverá ser pequena, especialmente no terceiro trimestre deste ano, daí a nossa expectativa de resultados fracos para o Caged no restante do ano”, disse Vale.

Em julho, segundo ele, pode haver a continuidade de movimentos observados em junho em várias empresas de diversos setores da economia, algumas das quais transformaram férias coletivas em demissões.

O economista da MB Associados lembra que os meses de agosto, setembro e outubro tendem a ser meses de resultados mais fortes do Caged em razão de as empresas se prepararem para as vendas do Natal, aumentando a contratação visando o final do ano.

“Mas, como estamos num ano de baixo crescimento da economia e ninguém está vislumbrando um Natal espetacular em termos de vendas, os números do Caged também para esses meses podem ser fracos”, acrescentou Vale.

Para a economista-chefe da consultoria Rosenberg Associados, Thaís Zara, os resultados do Caged no segundo semestre devem ser fracos, refletindo a desaceleração da atividade econômica como um todo.

Na pesquisa semana Focus, do Banco Central, os analistas reduziram esta semana a projeção para crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro neste ano pela nona semana consecutiva, esperando agora uma expansão de 0,90%, ante estimativa de 0,97% na semana anterior.

“Em termos dessazonalizado, esperamos que a criação de vagas no Caged nos próximos meses fique no zero a zero ou até mesmo registre retração eventualmente”, disse Zara. Aliás, em junho houve uma destruição líquida de vagas, em termos dessazonalizado, da ordem de 81 mil vagas, segundo os cálculos da economista da Rosenberg Associados.

O impacto dessa perda de fôlego na geração de emprego do Caged, na opinião de Zara, será uma desaceleração maior do consumo, que já está em curso. E mesmo as medidas adotadas pelo Banco Central na sexta-feira, de relaxamento do depósito compulsório para  liberar mais recursos para empréstimos bancários, terão efeitos limitados, disse ela, uma vez que o endividamento das pessoas está elevado e os bancos estão mais seletivos na concessão de crédito.

Na opinião do economista-chefe do Besi Brasil, Jankiel Santos, a geração de empregos tem sido baixa e a partir de agora não haveria razões para esperar uma melhora, especialmente se forem levados em conta os efeitos retardados do aperto monetário implementado pelo Banco Central, de 3,75 pontos porcentuais desde abril de 2013.

“Será importante analisar o número dessazonalizado do Caged a partir de agora”, afirmou Santos. Nesse sentido, ele considera possível que haja resultados negativos em termos dessazonalizados nos próximos meses.

O economista do Besi Brasil lembra que o mercado de trabalho foi a sustentação para o crescimento do consumo nos últimos anos e a sua perda de vigor deve afetar a expansão do PIB.

“A maioria dos analistas e investidores já havia embutido nos preços alguma fraqueza do mercado de trabalho, mas não esperavam a intensidade da desaceleração da criação de empregos em junho”, disse Santos. “Ninguém esperava algo tão intenso e rápido, como mostrou o Caged de Junho.”

O resultado de criação formal de empregos para o mês de julho sairá em meados de agosto, um pouco antes da divulgação, no dia 29 do próximo mês, do número do PIB do segundo trimestre de 2014, para o qual muitos analistas esperam uma contração.

Caso o Caged de julho, que marca o início do terceiro trimestre, volte a mostrar um número decepcionante na magnitude de junho, a confiança de consumidores e empresários pode ficar ainda mais abalada.

 Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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