Novo equilíbrio do câmbio chegou

Fábio Alves

08 de março de 2016 | 12h13

Os estrategistas do banco americano JPMorgan elevaram sua recomendação para o real de “underweight” (abaixo da média) para “medium weight” (média) sugerida pela sua carteira de mercados emergentes, citando que uma crescente probabilidade de mudança de governo no Brasil decorrente das investigações tendo o ex-presidente Lula como alvo exacerbou o ambiente de apetite global para o risco.

O argumento dos estrategistas do JPMorgan é de que uma transição suave (desfecho bem-sucedido do processo de impeachment com estrago limitado aos fundamentos e sem rebaixamentos adicionais da classificação de risco soberano do Brasil pelas agências de rating) iria afetar substancialmente o nível de equilíbrio da cotação do dólar versus o real, numa magnitude de 60 a 70 centavos da estimativa inicial do banco americano para o dólar ao fim deste ano, de R$ 4,70 para entre R$ 4,00 e R$ 4,10.

O que surpreende na mudança de recomendação dos estrategistas do JPMorgan é que, ao contrário da fluidez das apostas dos investidores no mercado à vista ou nos futuros de câmbio, os analistas costumam ser mais lentos em mudar suas recomendações para os clientes.

Mas algumas perguntas emergem:

É prematuro ou não apostar numa mudança do nível de equilíbrio do real se, de fato, acontecer uma troca de governo (ou “regime change” como diz o texto original do relatório do JP Morgan)?

Independentemente da perspectiva de que a presidente Dilma Rousseff não venha a acabar o seu segundo mandato – quer seja via impeachment, quer seja via cassação de sua chapa com Michel Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) -, os fundamentos macroeconômicos endossariam um nível de equilíbrio do câmbio abaixo de R$ 4,00?

Em conversa com esta coluna, um grande participante do mercado de câmbio considera prematuro fazer uma aposta de troca de patamar do câmbio, para um nível bem mais valorizado do que o atual.

“Se você partir da hipótese que, de fato, haverá uma troca de governo e que essa troca acontecerá rapidamente e será boa, então o dólar pode recuar bem mais”, comentou a fonte acima.

“O problema é que não se sabe se essa troca será boa, assim como não se sabe quando ou até se haverá essa mudança. Há muitos ‘se’ no meio do caminho, especialmente no tocante a quando. Tomar uma posição de um evento que pode acontecer muito lá para frente, é complicado.”

Até o vazamento da delação premiada do senador petista Delcídio do Amaral e da condução coercitiva do ex-presidente Lula para depor na Lava Jato, o mercado estava muito descrente em relação a um processo de impeachment de Dilma avançar ou mesmo quanto à cassação dela via TSE.

Com os eventos da semana passada, o movimento de venda de dólar acentuou-se, provocando uma reprecificação do câmbio.

Hoje, os investidores estão dando um peso importante para possibilidade de o mandato da presidente Dilma acabar antes do tempo.

Um catalisador relevante no curto prazo para a continuidade da empolgação do mercado, levando o dólar a um patamar ainda mais baixo frente ao real, acontecerá neste domingo, dia 13, quando serão realizadas manifestações a favor do impeachment em várias cidades do País.

Se essas manifestações atraírem um público muito grande e capaz de impressionar investidores e analistas, o dólar poderá cair mais ainda na semana que vem.

Todavia, é importante ressaltar que a liquidez anda baixa no mercado de câmbio, o que demonstra que os investidores não estão tão convictos numa aposta mais firme na direção da valorização do real.

Os estrategistas do banco JPMorgan, no relatório enviado a clientes, afirmam que se o dólar cair e seguir operando abaixo de R$ 3,70, o Banco Central provavelmente reduziria a rolagem dos contratos de swaps cambiais, hoje ao redor de US$ 10,4 bilhões por mês.

“Por outro lado, reconhecemos que um processo de impeachment não será suave e que a deterioração dos fundamentos econômicos provavelmente vai se acelerar no curto prazo”, ressaltam os estrategistas do JPMorgan.

De fato, não se justifica um dólar muito abaixo de R$ 4,00 se forem considerados apenas os fundamentos macroeconômicos: a gravidade da recessão econômica do Brasil; inflação elevada devido à forte indexação da economia; baixa credibilidade do BC; e pequena probabilidade de aprovação no Congresso de reformas e medidas que melhorem os resultados fiscais.

Mas uma troca de governo, com o atual sendo substituído por outro com maior apoio político para aprovar um ajuste macroeconômico crível no Congresso, pode sinalizar que esse novo patamar do dólar versus real veio para ficar.