O câmbio e o próximo Copom

Já seria o câmbio, de fato, um elemento concreto para o investidor embutir na curva de juros redução da taxa Selic no curto prazo?

Fábio Alves

09 de março de 2016 | 12h25

(Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Neste mês, recuo do dólar frente ao real excede 7%  (Foto:Agência Brasil)

A forte queda do dólar frente ao real está alimentando especulações de que já estaria na hora de o Banco Central levar em conta esse recuo e sua pressão de baixa sobre a inflação corrente e as expectativas inflacionárias.

Já seria o câmbio, de fato, um elemento concreto para o investidor embutir na curva de juros redução da taxa Selic pelo Copom no curto prazo, inclusive o encontro marcado para os dias 26 e 27 de abril, daqui a seis semanas?

Nesta terça-feira, o dólar encerrou a sessão a R$ 3,7379, em queda de 1,47%, no menor valor desde 24 de novembro de 2015. Neste mês, o recuo do dólar frente ao real excede 7%.

Vale lembrar que o câmbio, juntamente com o reajuste dos preços administrados, foi o grande vilão para a inflação ter atingido 10,67% no ano passado, a maior desde 2002.

Hoje, o IBGE divulgou que o IPCA de fevereiro subiu 0,90%, em comparação com alta de 1,27% em janeiro e abaixo do piso das estimativas dos analistas.

No acumulado de 12 meses, a inflação ficou em 10,36%, mas vários analistas já apostam numa desaceleração do índice mensal para ao redor de 0,50%.

Em comentário hoje na sua conta do Twitter, Octávio de Barros, economista-chefe do Bradesco, disse que com o IPCA de fevereiro, a redução da taxa Selic poderá ser antecipada.

“Tornou-se imensa a chance de o Banco Central cumprir meta em 2016 (abaixo de 6,5%) e chegar no centro, de 4,5%, em 2017”, escreveu Barros.

Barros acrescentou que sua previsão anterior contemplava uma taxa de câmbio a R$ 4,00 no final deste ano e apenas 5% de queda no preço da gasolina.

“Agora, o cenário de câmbio muda com a virtual vitória do meu ‘call’ (previsão) de conta corrente praticamente zerado já em 2016”, disse Barros. “Termos de troca melhorando e dólar no mundo que não aprecia mais. Gasolina pode cair um pouco mais. Ainda tem alguma gordura na curva.”

Já um gestor de recursos comentou, em conversa com esta coluna, que ainda é cedo para considerar que o câmbio já é um fator importante para a decisão da próxima reunião do Copom.

“A volatilidade do câmbio tem sido significativa e você tem ainda pelo menos seis semanas até o próximo Copom”, ponderou o gestor. Até lá, ficará mais claro se a votação do impeachment na Câmara dos Deputados será acelerada ou não. “Poderá acontecer o que se viu no final do ano passado, quando o impeachment parecia que ia chegar perto e de um dia para o outro sumiu.”

Ou seja, a animação do câmbio reflete a volatilidade do noticiário político. Se houver uma reviravolta, na direção contrária o impeachment, o dólar pode voltar a subir forte.

“Não dá para o Copom ficar marcando a mercado a volatilidade do câmbio, em especial quando ela reflete a volatilidade política e não a melhora nos fundamentos da economia”, explicou. “Mas se passarem as próximas semanas e o dólar chegar à reunião do Copom de abril ao redor de R$ 3,70, então o cenário muda.”

Mas o que aconteceria com a cotação do dólar se, neste fim de semana, o PMDB decidir não desembarcar da base aliada do governo na sua convenção nacional e as manifestações a favor do impeachment decepcionarem em termos de público? Voltaria a subir.

Todavia, se o câmbio permanecer no patamar atual até a próxima reunião do Copom é preciso levar em conta que, com o dólar a R$ 4,00, o BC não dava indicações de querer subir os juros. Estacionado ao redor de R$ 3,70, o impulso para cortar os juros será bem maior.

E esse incentivo aumenta se a inflação corrente começar a surpreender para baixo, como aconteceu com o IPCA de fevereiro, que ficou abaixo do piso das estimativas. Assim, a cotação do dólar frente ao real passará a mexer muito mais com a curva de juros.

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