O complô contra a alta de juros pelo BC

Autoridade monetária se reúne no próximo dia 20 em meio à batalha do governo Dilma para tentar reaquecer a economia

Fábio Alves

06 de janeiro de 2016 | 12h19

É, no mínimo, intrigante a campanha observada desde o início desta semana para o Banco Central não subir a taxa Selic na próxima reunião do Copom, marcada para o dia 20.

Aparentemente, o deflagrador do movimento de devolução das taxas dos contratos futuros foi o destaque dado pelo jornal Valor Econômico a uma frase dita pelo diretor de Política Econômica do BC, Altamir Lopes, após a divulgação do último Relatório Trimestral de Inflação (RTI), no fim de dezembro.

Na ocasião, Altamir disse: “Os instrumentos (para controle da inflação) serão usados quando e se o BC julgar necessário”. Mas como lembrou Renata Pedini, editora do Broadcast, no texto do Cenário-1 publicado ontem, o diretor do BC não parou apenas nessa frase para caracterizar a postura da autoridade monetária à frente.

Sede do Banco Central, em Brasília (Foto: Reuters/Ueslei Marcelino)

Próxima reunião do Copom está marcada para o dia 20 (Foto: Reuters)

Altamir disse ainda que a inflação é um imposto que ninguém quer pagar. Por isso, argumentou, é preciso trabalhar para trazer a inflação à meta “o quanto antes”.

É, de fato, conveniente pinçar aquela primeira frase num ambiente em que o governo Dilma Rousseff quebra a cabeça para reativar a economia em meio à aguda recessão que ameaça empregos, sem dar, por outro lado, respiro para a inflação.

A pergunta que fica é:

Estaria o BC numa situação de incapacidade de voltar a elevar os juros básicos num momento de forte queda da atividade econômica e de retração na concessão do crédito?

A resposta seria sim, apenas se o BC tivesse a necessidade inapelável de olhar o canal de crédito como o mecanismo prioritário de transmissão da política monetária na conjuntura atual da economia brasileira.

Há meses a concessão de crédito registra contração no Brasil.

Mas será isso em decorrência de bancos mais cautelosos em expandir suas carteiras para evitar a inadimplência ou de consumidores sem disposição para contrair mais dívidas diante do temor do desemprego e da recessão?

Quando um banco central eleva os juros, a inflação pode ceder diante de um dos três mecanismos de transmissão da política monetária: o de crédito, o de câmbio e o das expectativas.

Com juros básicos mais altos, o crédito fica mais apertado, elevando o grau de ociosidade na economia, levando a queda dos índices de inflação.

Outro mecanismo de transmissão da política monetária é via câmbio, pois quando se eleva os juros básicos, há um aumento no diferencial de taxas de juros do Brasil e do exterior, atraindo dólares e levando a uma apreciação do real, o que pode reduzir os preços dos bens “tradables”.

E o terceiro mecanismo é o “canal expectativas”. Quando o BC sobe os juros, os analistas entendem que a autoridade monetária estará comprometida em trazer a inflação para a meta no médio prazo, reduzindo suas expectativas de inflação.

Dependendo da conjuntura econômica ou política, um desses três canais (crédito, câmbio e expectativas) pode ser o mais importante ou prioritário para o BC.

Neste momento, qual é a relevância de cada canal?

O câmbio, por exemplo, responde hoje a fatores externos e à crise política brasileira, passando por um período de muita volatilidade, o que lhe retira a alavanca do diferencial da taxa de juros.

Por sua vez, o crédito está muito apertado sim, mas tem uma parcela de culpa nisso muito mais a recessão e os efeitos da investigação da Operação Lava Jato sobre o setor de infraestrutura do que propriamente o patamar dos juros básicos.

Resta ao BC atuar via o canal de expectativas.

Isso porque mesmo com toda a contração da atividade econômica a inflação e as expectativas inflacionárias não estão cedendo.

Ou seja, um aperto adicional da política monetária talvez não vá afetar tanto o nível de concessão de crédito, mas contribuirá para a inflação e as expectativas inflacionárias cederem, o que é crucial para o rearranjo macroeconômico do País e a volta da confiança dos agentes econômicos.

Mas daí a presidente brasileira chama-se Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa.

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