O efeito negativo da ata sobre as projeções de inflação

A surpresa no texto da ata foi a pouca ou quase nenhuma atenção dada pelo BC à piora recente nas projeções de inflação do mercado

Fábio Alves

28 de janeiro de 2016 | 13h54

Depois da piora significativa das expectativas inflacionárias registradas na mais recente pesquisa Focus, do Banco Central, a ata da última reunião do Copom, divulgada nesta quinta-feira, não convenceu na justificativa para a manutenção da taxa Selic em 14,25%, o que deverá alimentar novas rodadas de revisões para cima das projeções de inflação para 2016 e 2017.

A ata concentrou sua mensagem num alegado efeito desinflacionário de eventos externos, como a desaceleração da economia chinesa e queda no preço do petróleo, para justificar não ter subido os juros básicos na última reunião do Copom.

Também mencionou as incertezas domésticas, em particular a fatores “não econômicos”, para sinalizar que não pretende retomar um novo ciclo de aperto monetário.

“A ata teve uma mensagem bem mais ‘dovish’ do que eu esperava”, disse a esta coluna um renomado economista de um banco estrangeiro, em referência ao tom bem menos inclinado ao aperto monetário (ou “dovish”) do documento do BC.

A surpresa no texto da ata foi a pouca ou quase nenhuma atenção dada pelo BC à piora recente nas projeções de inflação do mercado.

Convenientemente para quem não quer mais subir os juros, a ata minimizou sua análise sobre o que está acontecendo com a inflação (analisando a surpresa para cima no reajuste de vários preços administrados no início deste ano) e com as expectativas inflacionárias, que só vêm piorando.

A sensação deixada em muitos interlocutores desta coluna é que o BC simplesmente produziu uma ata para justificar o cavalo de pau dado na última reunião do Copom, quando fez uma reversão abrupta na comunicação para sinalizar a manutenção dos juros básicos horas antes do anúncio da decisão.

E a ata também serve para guiar as expectativas agora de que não deve retomar o ciclo de aperto monetário.

Será mesmo que a desaceleração da economia da China terá um efeito desinflacionário no Brasil?

Há quem argumente que uma demanda menor da China por matérias primas exportadas pelo Brasil resultará na piora dos termos de troca, com reflexos no câmbio, levando a uma depreciação do real. E o câmbio terá, certamente, um efeito inflacionário.

Por outro lado, a atividade econômica no Brasil vem surpreendendo negativamente há meses e deve seguir bastante fraca, com piora esperada para o mercado de trabalho.

Todavia, mesmo o Produto Interno Bruto (PIB) provavelmente tendo encolhido em torno de 4% em 2015, a inflação bateu os dois dígitos.

A ata diz que o aperto monetário implementado ao longo do ano passado ainda surtirá efeito.

Não é, contudo, o que os analistas e investidores acreditam, haja vista a contínua deterioração das projeções de inflação na pesquisa Focus e o aumento do prêmio de risco de títulos públicos e na curva de juros, a despeito da piora na atividade econômica.

O BC fecha os olhos para o papel que exerce sobre as expectativas inflacionárias da credibilidade da política monetária.

Na última pesquisa Focus, a mediana das estimativas do IPCA para 2016 deu um salto de 7,00% para 7,23%, enquanto que a projeção de médio prazo do Top 5 (os analistas que mais acertam a estimativa desse indicador) subiu de 7,54% para 7,92%. Para o IPCA de 2017, a mediana das previsões aumentou de 5,40% para 5,65%, enquanto a estimativa do Top 5 disparou de 5,50% para 7,19%.

O interessante é que, embora o teor da ata do Copom seja compatível com a decisão tomada de não subir juros, a distância é colossal em relação à mensagem dada pelo último Relatório Trimestral de Inflação (RTI) e da carta escrita por Alexandre Tombini para justificar o estouro do teto da meta em 2015.

Ao menos, há uma nítida vantagem do recado super “dovish” da ata divulgada hoje, em termos de sinalização dos próximos passos do Copom: desta vez, o mercado crê piamente na intenção do BC de não retomar o aperto monetário. Ou seja, ninguém espera um cavalo de pau “hawkish” (sinalizando alta de juros) vindo de Tombini na véspera da próxima reunião do Copom, marcada para os dias 1 e 2 de março.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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