O erro sem volta de Alexandre Tombini

A mudança repentina de postura sedimentou a desconfiança que sempre o perseguiu desde que assumiu o cargo: a de que faz o que a presidente manda

Fábio Alves

20 de janeiro de 2016 | 16h22

Se o Copom não subir os juros ao final de sua reunião hoje, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, perde. Se subir os juros em 0,25 ponto porcentual, ele perde. E se elevar a taxa Selic em 0,50 ponto, ele também perde.

Seja qual for o desfecho do Copom, Tombini já é o grande perdedor dessa decisão.

Ao dar um cavalo de pau nas expectativas do mercado, depois de tê-las guiado para um ritmo de aperto de 0,50 ponto, o presidente do BC enterrou de vez qualquer possibilidade de recuperar sua reputação e credibilidade quando chegar o final do seu mandato.

Tombini tornou inúteis, desde ontem, futuras declarações e documentos oficiais de comunicação do BC (como atas do Copom e Relatórios Trimestrais de Inflação) ao calibrar por semanas as expectativas de investidores e analistas para, nas horas finais que antecedem a decisão de política monetária, mudar os rumos, utilizando-se de um pretexto tão frouxo que apenas criancinhas comprariam por valor de face.

Ele deu um caráter político definitivo a uma decisão de política monetária.

Assim, ficará na história como o responsável por um “downgrade” (rebaixamento) no cargo de presidente do BC: de um respeitado banqueiro central para mais um servidor público cumpridor de ordens, sem qualquer autonomia operacional ou intelectual.

A notícia de que se reuniu com a presidente Dilma Rousseff na véspera de divulgar uma nota inesperada e injustificável, comentando as projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro do Fundo Monetário Internacional (FMI), piorou mais uma situação já desastrosa:

Não basta ser independente, precisa parecer independente.

Mas a sua mudança repentina de postura, logo após ir beijar mão no Palácio do Planalto, sedimentou a desconfiança que sempre o perseguiu desde que assumiu o cargo: a de que faz o que a presidente manda.

Baixar os juros para 7,25%?

Sim, senhora!

A reação sem pruridos de seus pares ontem dá a mostra do tamanho do erro que ele cometeu.

O ex-presidente do BC Gustavo Loyola tachou de “lamentáveis e inacreditáveis” os comentários feitos por Tombini na já histórica nota divulgada ontem. Os repórteres do Broadcast, por exemplo, ouviram palavrões de analistas ao tentar repercutir a nota do presidente do BC, tal a irritação do mercado com a mudança repentina de rumos.

O mais surpreendente desse episódio é que se Tombini tivesse sustentado desde a última reunião do Copom que é necessário manter os juros inalterados para evitar maior sacrifício à atividade econômica, o mercado teria compreendido, mesmo que alguns argumentassem o contrário. Tecnicamente, há entre os que são contrários à alta de juros economistas respeitados e com argumentos sólidos.

Mas não.

A primeira bandeira a ser defendida por Tombini para guiar as expectativas para a alta dos juros – e um aperto de 0,50 ponto – é a de que o Brasil não se encontra numa situação de dominância fiscal e que os juros ainda são instrumento eficaz no combate à inflação e no controle das expectativas inflacionárias.

Basta, então, Tombini ser um economista academicamente reconhecido e com trabalhos em áreas importantes, como o de regime de metas de inflação, para ser um bom banqueiro central?

Não. Porque na questão de comunicação não há livro-texto que ensine um bom desempenho. Somente na prática, como outros banqueiros centrais estão sentindo na pele, como a Janet Yellen, do Federal Reserve (Fed).

Assim, independentemente do que o Copom decidir nesta quarta-feira, a comunicação de Alexandre Tombini fracassou. E daqui em diante surtirá um efeito bem menos potente para controlar as expectativas inflacionárias.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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