O estrago para Dilma do suposto tríplex de Lula

O estrago para Dilma do suposto tríplex de Lula

Enfraquecimento do petista tem reverberações sérias para a presidente

Fábio Alves

01 Fevereiro 2016 | 12h43

Mais que a volta do ruído do impeachment, com o fim do recesso no Congresso, a presidente Dilma Rousseff enfrenta uma ameaça mais premente à sua governabilidade: o noticiário pesado na mídia impressa e na TV da nova fase da Lava Jato, a Triplo X, envolvendo diretamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o alegado apartamento tríplex no Guarujá que ele seria o dono.

Como notou a esta coluna um influente interlocutor, especializado em medir a temperatura dos eleitores brasileiros, o capital político de Dilma ainda depende do aval de Lula, especialmente em tempos de um acalorado processo de impeachment e de recessão profunda.

Fachada do condomínio Solaris, no Guarujá. (Foto: Motta Jr./Futura Press)

Fachada do condomínio Solaris, no Guarujá. (Foto: Motta Jr./Futura Press)

E um enfraquecimento de Lula tem reverberações sérias para a presidente Dilma.

“Na incapacidade da oposição de criar obstáculos para Dilma, criou-se uma bandeira contra a presidente via investigação do tríplex no Guarujá, atingindo Lula diretamente”, explica o interlocutor acima.

Aliás, é uma nova ameaça fora da pauta coordenada de temas contra a presidente, como as pedaladas fiscais, as investigações no TSE ou as votações contra medidas fiscais de interesse do governo.

“Do ponto de vista da opinião pública, independentemente de as respostas dadas por Lula até agora serem convincentes ou não, esse noticiário pesado enfraquece o ex-presidente e, por tabela, a perspectiva de governo de Dilma, pois quem proporciona perspectiva de futuro para o governo é Lula e não Dilma”, afirmou a fonte.

As manchetes de jornais e de redes de televisão mostrando o desenrolar das investigações sobre o apartamento no Guarujá, como também a ligação de Lula com um sítio em Atibaia, arranharam a imagem do ex-presidente, cuja taxa de rejeição já se encontra bastante elevada conforme as mais recentes pesquisas de opinião.

A suspeita é de que o tríplex foi proveniente de pagamento de propina por parte da construtora OAS. Lula nega ser o dono.

Lula e sua mulher, Marisa Letícia, foram intimados a depor sobre o apartamento no Guarujá no próximo dia 17 como investigados pelo Ministério Público de São Paulo.

“O cerco investigativo e midiático em torno de Lula terá um efeito sério no mundo político”, escreveram os analistas da consultoria Arko Advice em nota a clientes. “O Carnaval deve amainar a agressividade do noticiário. Mas, em meados de fevereiro, com o Congresso funcionando e os depoimentos de Lula e dona Marisa a pedido da justiça, o embate vai ficar mais quente.”

O corolário do enfraquecimento de Lula, resultando num governo Dilma aparentemente mais frágil politicamente, é que os políticos que ainda não tinham escolhido definitivamente um lado para apoiar em vários temas, em particular o impeachment, terão mais incentivos para migrar para a oposição.

Todavia, o estrago maior no curto prazo de um enfraquecimento do ex-presidente Lula, diante do noticiário ligado às investigações do tríplex, é para a defesa do governo Dilma pelos movimentos sociais e pela população nas ruas.

Lula é a maior ponte de negociação e de busca de apoio para Dilma nos movimentos sociais.

Uma sangria na sua imagem decorrente das investigações, se não for estancada, poderá retirar de Dilma o apoio desses movimentos.

Em tempos acirrados do impeachment, esse é um apoio que a presidente Dilma não pode se dar ao luxo de perder.

Por outro lado, para a oposição da presidente, capitaneada por partidos como PSDB e DEM, um enfraquecimento político maior de Lula pode até gerar o seguinte movimento: ao concluir que o ex-presidente não será mais uma ameaça em 2018, a oposição poderá simplesmente deixar o governo Dilma sangrar até a próxima eleição presidencial.

Essa última opção, todavia, parece a menos provável, pois paciência nunca foi o forte da oposição.

Assim, uma nova rodada de denúncias contra Lula poderá deflagrar mais um período de turbulência para a presidente Dilma.

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